Mayra Gomes abre simpósio ‘Por uma crítica do visível’ nesta terça

cartaz-versaofinal-painel-baixaA professora da ECA/USP Mayra Rodrigues Gomes, uma das líderes do MidiAto, faz nesta terça (25), às 14h, a abertura do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível.  A pesquisadora ira apresentar o texto “Imagens mentais e materiais: a obesidade e sua representação”. 

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Este artigo trata das imagens enquanto disposições que implicam compartimentos para acolhê-las. Sem estes, ainda que se relacionem a materialidades concretas, as imagens podem até não serem vistas. A título de exploração de seu tema central, o artigo toma o estatuto da obesidade nos dias de hoje em comparação com seu entendimento em tempos passados. Para tanto, percorre matérias jornalísticas, sites noticiosos e outros tantos espaços em que a obesidade é apresentada como enfermidade, ou problema de saúde pública que demanda estratégias de contenção.

Não estou certa de que possamos enxergar as coisas do mundo sem que uma dimensão que propicie esse ato esteja devidamente instalada para nós, em termos de cognição. Em outras palavras, o dado a ver é precedido de um dado.

Antes de nos comprometermos, explicitamos que não se trata aqui de afinidade com um idealismo radical. Para nós a matéria do mundo é sempre um pré-dado que consiste em concretude. Ocorre que sua existência não se segue, necessariamente, por sua apreensão.

Também não se trata aqui de um certo tipo de fenomenologia que tudo reduz a perceber, com todo o aparato sensório para tanto mobilizado. Percebemos não só porque algo do mundo nos estimula, não só porque poderíamos ser definidos, num outro registro, como seres de percepção, mas também porque algo de nossas capacidades mentais, suscitadas pelo trabalho acumulativo do que chamamos de cultura, está pronto para perceber.

Todos os sistemas de classificação, todas as imagens e todas as descrições que circulam dentro de uma sociedade, mesmo as descrições científicas, implicam um elo de prévios sistemas e imagens, uma estratificação na memória coletiva e uma reprodução na linguagem que, invariavelmente, reflete um conhecimento anterior e que quebra as amarras da informação presente (MOSCOVICI, 2003, p. 37).

Para representar o processo, pensemos em enquadramentos. É como se, mentalmente, um compartimento tenha sido criado e esteja pronto para captação de determinados conteúdos. Na mesma proporção, deixamos de ver assim que falte o compartimento que comporte a coisa a ser vista.

Faço tais considerações a propósito dos trabalhos que o MidiAto, grupo de estudos de linguagem e mídia, desenvolve neste segundo semestre de 2014. Eles versam sobre análise de mídia, enquanto suporte e produto, estudos críticos que pretendem apreender os movimentos de geração, mutação e formação de cultura e, portanto, dos indivíduos que a vivenciam, tendo a imagem como um dos temas condutores.

De qualquer modo, uma imagem é sempre, ao mesmo tempo, material e mental, mental como compartimento que propicia a visão da material, mental, ainda que induzida por estímulos materiais, enquanto imaginação que vai encontrar sua materialidade no mundo.

No caso da imagem como ordem material, ela nos parece um dado da natureza e, no caso da imagem mental, ela nos parece, simplesmente, natural. De um lado e de outro, sempre obtemos a resposta calcada na identidade das coisas como per se confirmadas: é assim porque é, claro.

Em todo caso, é preciso que tenhamos um objeto/imagem na tentativa de demonstrar o dado que habita um dado a ver. Para tanto, escolhemos como objeto de teste o tema da obesidade e suas representações, enquanto e como têm sido apresentadas nas mídias. É certo que tanto as ações restritivas quanto as matérias jornalísticas correspondentes só podem ensaiar acontecer porque há uma categoria, a da obesidade, atravessada por interdições.

Assim, o conjunto das matérias que selecionamos para exploração neste trabalho dá conta, implicitamente, de Foucault. Dá conta do enquadramento, da supervisão e do controle, do poder que se revela no exame e descrição minuciosa de casos, das regulações, das normas, das políticas públicas, por sua vez, também, formas de controle. Dá conta de um mercado de bens, materiais e simbólicos, que se entranham no enquadramento, das imagens e visões das coisas aí empenhadas.

Há certamente uma nova imagem do obeso que se distancia de tradicionais associações: comilão, bem humorado e de bem com a vida. Onde foram parar nossas formações imaginárias? Onde foi parar o gordo brincalhão, maroto, degustador de todas as iguarias, com sorriso contagiante? Aliás, o que será, daqui para frente, de Papai Noel? Para além da gordura excessiva, agora as imagens do gordo portam o manto da enfermidade, assimilando-o ao quadro vasto dos estados doentios.

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