‘Por uma crítica do visível’: Andrea Limberto e Nara Cabral pesquisam a Bienal de Artes de SP

cartaz-versaofinal-painel-baixaO título “Ruínas imagéticas do real na arte contemporânea: uma perspectiva crítica a partir de obras da 31ª Bienal de Artes de São Paulo” é o que resume a investigação que Andrea Limberto, pós-doutoranda da ECA/USP, e Nara Lya Simões Caetano Cabral, mestranda na mesma instituição, trazem para o II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, nesta terça (25). Felipe Polydoro e Thiago Venanzoni, do MidiAto, fazem o relato do artigo.

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

 

Assumimos um estudo sobre experiências em arte contemporânea que tenham o potencial de renovar a produção imagética, especialmente em relação à sua tentativa de inovação formal e de desafiar regimes do visível (RANCIÈRE, 2009). Tal desafio é favorecido por se tratarem de produções limítrofes entre os discursos das mídias e das artes. Adotamos, como corpus, obras da 31ª. Bienal de Artes de São Paulo, cuja curadoria norteia-se pela proposta de presentificar coisas que não existem. Mais do que buscar o que não existe, investigaremos, na justaposição dos elementos artísticos e midiáticos, a forma de articulação dessa inexistência, do que se diz ocultado, a ser revelado, ruína do real.

Observamos que, num primeiro nível, tais articulações localizam hoje a falta, de maneira geral, na apresentação de situações de conflito, de embates identitários e da ênfase em questões de outro modo silenciadas nos discursos sociais e, então, abrigadas sob o discurso institucional de uma Bienal de Artes. Assim, estamos privilegiando obras que, também em seu desígnio temático, coloquem-se sob a égide da dualidade interdição/libertação. No entanto, assumimos que, num segundo nível, a criticidade observada está menos em levar essas questões ao espaço de exposição e, mais, em deslocar a possibilidade de ruptura para os espaços de invocação dos corpos.

Nessa abertura crítica estamos entendendo a possibilidade, mesmo que intangenciável, de ter contato com o novo através do corpo ausente e na tentativa de sua presentificação de forma distorcida e recortada. A partir disso, teremos três principais questões de trabalho. A primeira delas consiste em questionar as possibilidades de representação artística da realidade, que tem sido tema em grande parte dos trabalhos de arte contemporânea. Em seguida, observaremos figuras e objetos representados sob a égide das dualidades interdição/libertação, da submissão/exposição, tendo em vista que o lugar da interdição é um lugar de visibilidade privilegiada. Por fim, analisaremos em que medida a produção resultante de tais marcas compõem uma proposta de alargamento do visível baseada na exposição de tabus, na inclusão dos corpos e nos movimentos de interatividade.

Exemplificamos em favor desta hipótese com a seleção de três obras: Espaço para abortar, do coletivo Mujeres Creando; AfroUFO, de Tiago Borges e Yonamine; e Errar de Deus, do grupo Etcétera e Leon Ferrari. Todas são atravessadas por temas considerados tabus – o aborto, a aceitação do racismo e a representação do sagrado, respectivamente –, que são postos à luz, e convidam o público, em maior ou menor grau, à interação. Cabe sublinhar, ainda, que as três obras selecionadas podem ser incluídas nas experiências da chamada arte relacional, com sua proposta de reconciliação com o mundo da vida e construção de imagens de vida compartilhada, as quais mobilizam um certo regime do visível pelo qual se busca articular a relação entre estética e política (FABRINNI, 2013).

Na instalação Espaço para abortar, por exemplo, o visitante pode transitar por pequenos espaços rodeados por tecidos vermelhos que lembram úteros, onde se podem ouvir depoimentos de mulheres que abortaram. Em AfroUFO, o público adentra, descalço, um espaço que apela, em uma profusão de representações de alteridades periféricas, para os vários sentidos – visão, audição, tato e até olfato. Já em Errar de Deus, o visitante pode gravar, por meio de aparelhos telefônicos, mensagens de voz para Deus, que depois serão reproduzidas, compondo a playlist do ambiente. O que destacamos especialmente em todas elas é a falta dos corpos: desde a necessidade de incluir o expectador na estrutura criada até a apresentação de corpos recortados na forma de manequins despedaçados, montagem de partes do corpo em arame e escultura em isopor.

Trata-se, assim, de um trabalho de investigação sobre formas de ver o outro e a si mesmo como corpos faltantes no visível. De modo mais específico, o percurso aqui é feito pela arte contemporânea e sua necessidade de desconstruir as formas tradicionais de se fazer arte, de aproximar-se de elementos da realidade e de se propor a recobrir a distância com o outro. Nesse trajeto, a arte aproxima-se da linguagem midiática e tem seu papel, uma vez mais, revisto e reassumido. No quesito estético, há o apelo a sentimentos de instabilidade, desconforto, interação, participação, rompimento de expectativas. Há um ponto em que a abertura crítica se fixa e defendemos que este seja sobre os corpos. Desde a perspectiva albertiniana até a inclusão em estruturas interativas, é em torno dessa medida que a estruturação formal se assenta. E nossa questão, dessa forma, será: qual a dimensão estética, formal e ao mesmo tempo política determinada pela medida crítica sobre a entrada e circulação dos corpos?

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