‘Por uma crítica do visível’: Polydoro e Venanzoni debatem imagens do Estado Islâmico

cartaz-versaofinal-painel-baixaOs investigadores do MidiaAto e  pós-graduandos da ECA/USP Felipe da Silva Polydoro e Thiago Siqueira Venanzoni são os autores de “Violência e máscara nas imagens do Estado Islâmico”, trabalho que será apresentado nesta terça (25), no primeiro dia do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível. O trabalho será relatado por Ivan Paganotti e Rosana Soares, também do MidiAto.

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

No texto The making of the world’s scariest terrorist brand, o jornalista americano Marshall Stella (2014) observa que a “estratégia diabólica” do Estado Islâmico da Síria e do Iraque (ISIS) une práticas comunicacionais da cibercultura com “selvageria medieval”. O ISIS, apontado pelo jornalismo ocidental como o grupo terrorista mais violento já criado, ganhou amplo espaço no noticiário depois que passou a divulgar vídeos em que registra a decapitação de reféns norte-americanos e ingleses como forma de retaliação aos governos desses países, que declararam oficialmente guerra ao grupo.

Esses vídeos chocantes e brutais são discursos políticos no sentido mais estrito. Nessa estratégia, o ato assassinato é produzido para a câmera; serve à confecção de uma imagem em movimento feita para circular, repercutir, chocar e gerar efeitos políticos – no caso, gerou a intensificação dos bombardeios dos Estados Unidos e seus aliados.

Trata-se, abertamente, de uma encenação: a ação é toda arquitetada para produzir uma cena com pouco mais de um minuto em que um refém é morto diante da câmera. Há um controle tanto do ato violento, quanto da filmagem deste ato: imagem e fato são indissociáveis no plano discursivo, na medida em que os agentes do ISIS são autores do homicídio e também autores do registro audiovisual. Nota-se, até mesmo, um certo profissionalismo na filmagem, que inclui duas câmeras, montagem e boa nitidez. Essa construção cênica remete mais diretamente à ordem do semblante. Mas há também o fato incontornável do assassinato de um ser humano registrado ao vivo, a imagem mais violenta que se possa imaginar. Há uma cena e há também uma imagem referencial que registra uma morte violenta. O fato de o refém ser um ocidental é fundamental para a repercussão midiática. Circulam muitos relatos sobre agressões do ISIS a sírios e iraquianos, inclusive assassinatos, sem tanto impacto no noticiário.

Nenhum site de notícias exibe esses vídeos. No máximo, mostram frames estáticos de trechos menos violentos. Não se trata apenas de um cuidado com a brutalidade excessiva, pois o jornalismo por vezes mostra imagens de violência explícita. Neste caso, exibir os vídeos na íntegra e reproduzir o discurso do ISIS acarretaria cumplicidade. E concederia ao Estado Islâmico a chance inadmissível de narrar seu próprio ato terrorista e de, ao menos durante alguns minutos, enunciar também as palavras que significam as imagens.

Os vídeos podem ser encontrados, porém, em sites que reúnem conteúdos como pornografia, pirataria e violência explícita. O agrupamento desses conteúdos no mesmo lugar revela o pertencimento a um mesmo regime visual, pornográfico na representação do sexo e também da violência. Black (2002) define essa etapa da cultura visual de “imperativo gráfico”.

Em certo sentido, os vídeos de decapitação se enquadram no que Barthes (1990), refletindo sobre o fotojornalismo, chama de imagem traumática, cujo choque e horror geram uma suspensão momentânea de sentido, algo próximo a uma denotação pura. Ainda que essas imagens do ISIS sejam discursos fechados, ainda que haja a produção deliberada de uma cena de horror, a visão do horror em si mesmo teria o mesmo tipo de efeito de suspensão da linguagem que Barthes (1990) atribui às fotografias jornalísticas traumáticas, tão diretas na transmissão de um acontecimento que essa imediatez se antecipa a qualquer processo de significação e conotação?

Outra categoria que usaremos neste artigo como ferramenta para reflexão dessas imagens de horror que provocam repulsa – e também fascínio – é a de abjeto, relevante nos movimentos da arte contemporânea que visam a um “retorno do real” (FOSTER, 2014, p. 144) e presente em fenômenos da cultura midiática como o jornalismo sensacionalista. Conforme Seligmann-Silva (2005), na psicanálise de Julia Kristeva, o abjeto é “uma espécie de primeiro não eu, uma negação violenta que instaura o eu” e vincula-se “ao que há de mais primitivo em nossa economia psíquica”. Sua manifestação, geralmente associada a figuras de separação/exclusão e ao corpo, “seus dejetos e fluídos”, “nos envia novamente a esta protomorte de onde o eu começou a se desenvolver, nos atira de volta ao campo caótico e pré-simbólico da natureza” (SELIGMANN-SILVA, 2005).

Ainda segundo Seligmann-Silva, o abjeto não funciona no paradigma da imitação, pode-se apenas apontar para ele, um modo de representação próximo ao mecanismo de reversibilidade entre Real e semblante descrito por Badiou (2007) – outra referência fundamental para o desenvolvimento deste trabalho. Para o filósofo francês, o abrupto do Real só se manifesta na máscara e no semblante, mas jamais no modo da imitação (há um apontamento, uma função de desconhecimento que remete ao Real, tal como descrito na teoria de Jacques Lacan). E as figuras do Real que preponderam desde o século XX são exatamente as do choque e da violência (BADIOU, 2007).

Uma hipótese, portanto, é a de que a potência das imagens de violência explícita do Estado Islâmico não reside apenas no caráter gráfico, mas na capacidade de apontar para o Real do horror e do abjeto. Importante levar em conta, nesta reflexão, a opção do ISIS, na montagem dos vídeos, de não mostrar o instante da decapitação. Há um movimento da faca no pescoço e depois um corte. Em seguida, surge um plano em que a cabeça já aparece sobre o corpo ensanguentado. O corpo e o sangue são suficientemente brutais, mas é preciso pensar o significado pleno dessa decisão de ocultar o instante mais violento, a ocorrência mesma da morte. Finalmente, o artigo vai contrastar esses vídeos mais crus de decapitação com outras imagens também fabricadas pelo ISIS, mas com outro estatuto: pastiches de games e filmes de guerra com o intuito de atrair membros ocidentais para o grupo.

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