‘Por uma crítica do visível’: série inglesa Black mirror é o tema de Rosana Soares e Ivan Paganotti

cartaz-versaofinal-painel-baixaNesta terça (25), no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, Rosana de Lima Soares, uma das professores líderes do MidiAto e docente na ECA/USP, apresenta, em parceria com Ivan Paganotti, doutorando em ciências da comunicação pela USP, o trabalho “Metacrítica midiática: reflexos e reflexões das imagens em Black mirror”. O artigo terá relato feito por Gislene Silva e Wania Bittencourt, da Universidade Federal de Santa Catarina.

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Ao pensarmos o estatuto da imagem na contemporaneidade, marcado sobretudo por práticas midiáticas cada vez mais hibridizadas, torna-se imperativo fazê-lo em perspectiva crítica. Nesse sentido, uma questão se coloca: se não estamos mais situados no campo da literatura e do cinema enquanto artes modernas, qual o lugar da crítica frente a objetos diversificados, em que modos de produção e circulação passam a fazer parte dos próprios discursos difundidos? Como reunir elementos dispersos da crítica – seja ela autorizada, especializada ou informal – para estabelecer critérios e valores que possam dar conta do universo multifacetado das mídias?

Para além da compreensão da crítica de mídia como a avaliação sistemática e permanente dos meios em relação à cultura (social e profissional) na qual se inserem, propomos pensar a crítica como uma desconstrução não apenas dos objetos sobre os quais se volta, mas também das condições de possibilidade que engendram sua materialidade. Desse modo, ampliamos a proposição de que a crítica se volta apenas para o estabelecimento de juízos de valor, mais ou menos adequados, sobre a mídia, realizando também uma espécie de “dobra” em que não há origem possível para a interpretação, posto que esta é rastro de algo para sempre inapreensível. No caso da televisão, em que os espectadores tomam parte de seus processos de codificação e decodificação, para além da mera transmissão de conteúdos buscamos articular uma visada externa capaz de, ao mesmo tempo, distanciar-se e dialogar com a crítica produzida no interior de seus relatos.

Ainda que o acervo de críticas publicadas sobre a programação não seja sempre reconhecido, nos meios acadêmicos, como uma fortuna crítica televisiva, faz-se necessário reconhecer a constituição de um repertório próprio, em que a análise expressiva dos programas aponta para inovações técnicas, estéticas, narrativas e, mais do que isso, para certos modos de endereçamento de formatos e de públicos específicos. À medida que a formação de uma cultura televisiva se consolida, os embates entre elitização e popularização, a relevância dos índices de audiência, a definição da grade e de padrões de qualidade, bem como os desafios éticos pressupostos nesse debate são problematizados, possibilitando que surja, assim, uma crítica da mídia engendrada nela mesma.

Fúria canalizada, forma e conteúdo incômodos: julgamento crítico em Black mirror

Como exposto por Fuchs (2010, p. 180), produtos críticos também podem estar inseridos em meios de comunicação mainstream desde que adotem formatos ou conteúdos que exponham histórias e pontos de vista alternativos, critiquem limites impostos pela representação midiática tradicional, contestem discursos reproduzidos como consensuais, ou adotem novas propostas de linguagem em formatos que comumente não encontram caminhos nos grandes meios. Entretanto, algumas questões centrais surgem nesse sentido: qual a especificidade do discurso da crítica sobre outros meios de comunicação, que, por ser também midiatizada por sua publicação, poderia ser chamada de “metacrítica”? Como essa crítica sugere e apoia-se na recepção do público nessa instância intermidiática? E, para além dos discursos orais ou textuais, como as imagens por si só podem propor (ou decompor) discursos críticos?

A análise de um objeto midiático na intersecção desses problemas permite avançar essas questões. A série inglesa Black mirror é composta de histórias curtas sem conexão narrativa, mas que justapostas compõem um panorama trágico sobre a relação da humanidade com suas tecnologias. Criada por Charlie Brooker, suas duas temporadas foram exibidas pelo Channel 4, canal público britânico, em dezembro de 2011 e fevereiro de 2013, com três episódios de uma hora cada. O segundo episódio da primeira temporada – “Fifteen million merits”, com roteiro do próprio Charlie Brooker e de Kanak Huq – trata de Bing Madsen, personagem solitário em um futuro distópico em que todos trabalham em bicicletas para gerar energia enquanto consumem produtos em plataformas virtuais. O personagem principal procura então canalizar sua revolta contra esse sistema desumano durante um programa televisivo de talentos – paródia de sucessos como The voice.

Em primeiro lugar, o episódio apresenta um formato inovador e “crítico”, com longas sequências em silêncio, intercaladas com breves diálogos e músicas, até longo monólogo final descontrolado, que reflete a saturação do protagonista. Além disso, trata-se de um “conteúdo crítico”, ao tratar de relações sociais problemáticas por trás do consumismo, da divisão de classes e da alienação. Por fim, o episódio questiona os limites da própria crítica que é “canalizada” na mídia, que pode ser definida como “metacrítica” não só por tratar de outros meios, mas também por refletir sobre o próprio sentido de uma crítica que acaba por ser inserida como engrenagem dentro dos mecanismos que pretende questionar.

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