‘Por uma crítica do visível’: alteridade na televisão é tema de José Lobato

cartaz-versaofinal-painel-baixa

“Olhar, experiência e mediação nas narrativas visuais de alteridade: por uma análise estrutural das imagens do Outro no espaço televisivo” é o título do trabalho que será apresentado por José Augusto Mendes Lobato no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, nesta terça (2). Lobato é doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. O investigador do MidiAto Rafael Duarte O. Venancio fará o relato do artigo.

O evento ocorre no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Já avançadas em termos de abordagens e procedimentos metodológicos, as discussões sobre as representações de identidade são um objeto clássico de estudo no campo da comunicação social. Dos estudos culturais às ciências da linguagem, diferentes referenciais teóricos têm sido aplicados no intuito de compreender de que modo determinados grupos ou comunidades são convertidos em discurso e inscritos no fluxo das mídias. Daí nascem noções clássicas, como a de narrativa da nação (HALL, 2001) e a de escrita da tradição (BHABHA, 1998), que pressupõem a existência dos processos discursivos como forma de sedimentação de saberes, valores e culturas.

É a partir desses debates teóricos que podemos mapear a relevância dos enunciados sobre o mundo: além de servir à “transmissão do ethos comunitário, ou seja, de tradições e modos de ser”, como diz Sodré (2009, p.180), as narrativas dão forma às identidades coletivas, reforçando representações sociais (MOSCOVICI, 2003), e trabalham a favor da coesão e do sentido, conferindo legitimidade aos grupos nelas representados. Ou seja, o discurso, em suas vertentes verbal, imagética, sonora, gestual etc., é entendido não apenas como processo informativo, mas também autoconfirmativo, ao determinar e reforçar os traços visíveis do eu/nós e mirar a identificação contínua.

Nossa proposta é aplicar tais linhas de análise a um processo tão complementar, quanto frequente: o das representações sobre o Outro articuladas em narrativas de informação e entretenimento. Tal ideia se justifica ao levarmos em conta a relação de interdependência entre identidade e alteridade: se, de fato, a realização do sujeito se dá somente na linguagem e diante do Outro, como aponta Freitas (1992, p. 54), podemos entender que, por razões as mais diversas, o próximo e o distante são categorias irremediavelmente entrelaçadas e tensionadas na textualidade midiática.

Tomando a televisão como objeto, buscaremos compor uma metodologia de análise estrutural dos discursos imagéticos que convidam à experiência de alteridade – ou seja, ao contato mediado das audiências com o Outro, que tem sua singularidade e materialidade narrativizadas a partir dos pressupostos e estéticas do audiovisual. Para isso, três campos de análise são essenciais: os estudos sobre representações, discursos e narrativas, ancorados nas ciências da linguagem e na psicologia social; trabalhos que debatem a questão da imagem, suas atribuições comunicacionais e os efeitos de sua transposição ao sistema midiático; e, também, estudos recentes sobre gêneros, formatos e o estatuto cultural da televisão na contemporaneidade.

Essas referências nos permitem abordar a narrativa televisiva a partir daquilo que ela reverbera de experiências simbólicas essenciais ao homem desde a Antiguidade – a saber, a produção de enunciados e imagens que explicam o mundo, demarcam sentidos e, como afirma Gomes (2003), definem aquilo que dele torna visível e, principalmente, vivível. É em função de uma “vontade de verdade”, nos termos de Foucault (1996), que o discurso disciplina, instaura regimes de visibilidade e nos oferece molduras para enquadrar experiências, com implicações diretas na configuração do que, nelas, é familiar ou exótico.

Adicionalmente, somos instados a compreender que textos e imagens são campos privilegiados para aquilo que Moscovici (2003, p. 89) denomina rotinização: processo psíquico-comunicacional que torna os indivíduos “mais familiarizados com objetos e ideias incompatíveis”, podendo, desse modo, se conectar a eles. Sendo as representações sociais mecanismos de redução de familiaridade, como diz o autor, aferimos que todo aparato discursivo – inclusive o visual-midiático – trabalha no rumo de propiciar identificações e rotinizar olhares. Inclusive, e principalmente, quando o assunto central do enunciado é um universo cultural ou geograficamente distante.

Em suma, as narrativas diaspóricas ou – como denominamos – de alteridade, que pressupõem o deslocamento, a instabilidade e a assunção do Outro e das fissuras que o demarcam na linguagem, são um objeto de análise fecundo aos estudos críticos sobre a imagem. Resta uma questão: como mapear as estruturas e estratégias das narrativas de televisão que versam sobre a alteridade? Propomos, como ponto de partida, a utilização de três hipóteses oriundas de diferentes âmbitos dos estudos visuais: a imagem indicial, conforme os raciocínios de Dubois (1994); a imagem espetacular, segundo Debord (1997); e a imagem complexa, abordada nos estudos de Català (2005). Cada uma destas linhas oferece propostas metodológicas diferentes para conceituar os efeitos e, principalmente, a natureza das representações imagéticas.

De maneira preliminar, observamos que alguns dos mecanismos utilizados para demarcar a alteridade no texto televisivo são os jogos de oposição; estratégias testemunhais (via singularização/personalização do Outro); a produção de efeitos de real, via referencialidade e produção da verossimilhança (BARTHES, 1988; GOMES, 2000); e a criação de fronteiras semiológicas (LOTMAN, 1998). Para fins de exemplificação, observaremos episódios do programa O mundo segundo os brasileiros, reality show da Band que propõe apresentar grandes cidades ao redor do mundo a partir da perspectiva de brasileiros que nelas vivem. Assim, pode-se mapear e construir linhas de análise que permitam abarcar a complexa teia de sentidos das narrativas de alteridade, independentemente dos gêneros ou formatos televisivos nos quais se inscrevem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s