‘Por uma crítica do visível’: Eliza Casadei e Mariana Duccini falam do autobiográfico e do documental

cartaz-versaofinal-painel-baixaNo segundo dia de apresentações do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas, Eliza Bachega Casadei, professora na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, e Mariana Duccini Junqueira da Silva,docente no Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, trazem o trabalho “A fotografia entre o autobiográfico e o documental: autoria e referencialidade na crítica de imagem”

O evento ocorre nesta terça (2), no auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia. As investigadoras do MidiAto Cíntia Liesenberg e Daniele Gross são as responsáveis pelo relato do artigo.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

O tensionamento entre o documental e o autobiográfico na imagem (e, especialmente, na fotografia) é um tema recorrente na obra de autores como Sophie Calle, Hélène Cixous, Annie Ernaux, Georges Perec e Agnès Varda, que tomam sob diferentes perspectivas os engendramentos que ligam o tripé formado entre a memória, a ficcionalização do eu na imagem e os efeitos de referencialidade do dispositivo, espécie de “desejo ontológico” em relação à fotografia que garante sua distinção em uma comunidade das imagens (BARTHES, 2006).

Diante disso, o objetivo do presente artigo é explorar essas diferentes perspectivas para o alinhavamento de uma crítica da imagem que se estruture para além da questão da imagem-fetiche e do punctum barthesiano e reposicione o próprio conceito de referencialidade como decorrente do deslocamento de gêneros a partir da adoção de diferentes códigos de narração e técnicas de composição imagética específicas. Sobrevém, nessa perspectiva, a concepção do realismo como um operador estético, um conjunto de protocolos que articulam a relação entre o real e sua representação conforme expectativas socialmente determinadas, o que explica a disposição valorativa que torna certas representações mais legítimas do que outras, exercício contingente a cada época e a cada contexto cultural próprios às representações.

Serão discutidas, assim, as fronteiras entre a referencialidade (fotografia como técnica) e a criação (disposição autoral, decorrente do gênero) na estruturação da imagem fotográfica. As produções analisadas trabalham com uma qualidade estética que faz aparecer novas configurações de realismo, em que a legitimidade do relato não mais se atesta pela objetividade, mas pela ênfase no lugar de onde se enuncia: o espaço de uma experiência irredutível, particular, em oposição às categorias universalizantes. Nesse sentido, as narrativas que se ordenam por um efeito de real deslizam de um realismo de matiz histórico para um realismo dos afetos, das subjetividades.

Nesse jogo, é a realidade da inscrição que toma o primeiro plano da narrativa, em que se enfatiza o envolvimento e o engajamento do narrador com o objeto de sua narração. O “realismo dos afetos”, portanto, tem na ênfase da experiência subjetiva seu valor ético e estético. É assim que as dimensões do testemunho, da autorrepresentação, do envolvimento pessoal com a matéria narrada, do sofrimento (no sentido patético) que se experimenta em primeira pessoa e, eventualmente, do amadorismo ganham compleição nas diferentes formas de expressão da contemporaneidade (entre elas, a própria fotografia documental).

A partir do entendimento de que a escritura é da ordem da performance e não da criação, a autoria é pensada não como a ação do sujeito-fotógrafo na feitura de sua obra particular, mas como o espaço a partir do qual se dá a organização discursiva das significações derivadas da fotografia (BARTHES, 2004; FOUCAULT, 2009). A autoria, portanto, é pensada como uma função e não como a estrita materialização da subjetividade no engendramento de uma obra. Em outros termos, é necessário considerar o autor como um efeito derivado de certos gêneros do discurso, ou seja, como um efeito simultâneo de um jogo estilístico, cujas regras subsumem a própria ideia do gênero, e de uma posição enunciativa.

A isso, coaduna-se a ideia de que a função-autor é também um espaço de autoridade: ela “não se forma espontaneamente como a atribuição de um discurso a um indivíduo. É o resultado de uma operação complexa que constrói certo ser de razão que se chama de autor” (FOUCAULT, 2009, p. 276) e a quem se dá um status realista e uma posição de autoridade. Toda autoria, portanto, sempre pressupõe operações de autorização de um lugar de discurso.

A partir do pressuposto de que sempre haverá, nas tipologias discursivas que contemplamos, um enunciador proposto, um lugar de onde as proposições de sentido serão irradiadas, é possível dizer que o movimento inerente à noção de autoria traduz-se em estratégias de autorização para que se ocupe esse posicionamento. Isso engendra espaços de reconhecimento e legitimidade para a produção fotográfica. Esse reconhecimento corresponde à validação de um “nós coletivo” que fornece as regras e leis de um meio circunscrito por determinações e imposições próprias, bem como por sistemas complexos de privilégios, obrigações e hierarquias.

É justamente a partir desses pressupostos que se pode pensar os modos de (autor)ização da fotografia como conceito núcleo para uma crítica da imagem.

No pacto autobiográfico, engendra-se uma relação com o verdadeiro que está no seu próprio aspecto formal, independentemente do conteúdo que serve de objeto a esta fé juramentada que sustenta um testemunho. Enquanto articulação formal, portanto, a promessa de verdade da autobiografia

Não tem a ver com o enunciado como tal, mas com a garantia de sua eficácia: o que nele está em jogo não é a função semiótica e cognitiva da linguagem como tal, mas sim, a garantia de sua veracidade e da sua realização (AGAMBEN, 2011, p. 12).

Esse aspecto é lastreado por um tipo de experiência que abrange igualmente a posição do espectador. Contemplar uma fotografia tem como correlata a disposição em colocá-la (ou não) em “situação de existência”. Tal investimento subjetivo, que se perfaz em termos dialógicos, há de levar em conta a vinculação de toda imagem com a esfera do simbólico: o domínio das relações socializadas, das convenções estabilizadas que modulam as formas de relação do sujeito com o mundo: “A imagem veicula, sob forma necessariamente codificada, um saber sobre o real” (AUMONT, 2012, p. 84).

Nesse sentido, o conceito de autoria nas imagens de tensionamento entre o autobiográfico e o documental será discutido em suas implicações éticas e estéticas, em que entram em questão os movimentos formais da memória, os pactos estabelecidos entre os participantes do discurso e as diferentes articulações dos códigos de narração propostos.

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