‘Por uma crítica do visível’: Juliana Doretto debate a imagem da infância

cartaz-versaofinal-painel-baixa“Crianças em “Sombra e água fresca”: a imagem do ideal contemporâneo de infância na Vogue Kids” é título da apresentação que abre o segundo dia de debates do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, que ocorre nesta terça (2). Juliana Doretto, doutoranda no Universidade Nova de Lisboa e pesquisadora do MidiAto, é quem apresenta a investigação. Fernanda Budag e Seane Melo fazem o relato do artigo.

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Victoria Bonnell (99) diz que o “repertório de referências disponível” numa cultura nos ajuda a interpretar seus significados (apud DUBINSKY, 2012, p. 12). Por meio de referências visuais recolhidas sobretudo a partir do século XVII, Ariés (2006) mostra que a infância é uma construção social: não há uma marca biológica que determina o que é infância ao longo dos tempo – ao ponto de, na Idade Média, não haver infância –; são os valores, as crenças, as normas sociais de um período e de uma sociedade que ditam os contornos que definem as infâncias (já que não há um único modelo, num determinado recorte de tempo).

Dubinsky (2012), por sua vez, mostra como as imagens de crianças deslocadas do lugar social que, em geral, é reservado a elas, são usadas para mobilizações sociais. Meninos e meninas sofrendo em situações de guerra e de fome viram cartazes de campanhas mobilizadoras. Falamos aqui de um “ideal”, que perpassa os conceitos de infância das sociedades ocidentais atuais: a criança é aquele que tem de ser protegida de conflitos, de dores e de sofrimentos. Não necessariamente todas elas, mas as que Cristina Ponte (2005) chama de “nossas crianças” – as que são os filhos, os parentes, os alunos das classes médias e alta.

O que entendemos, a partir disso, é que essas crianças que padecem nas guerras e na fome são destituídas de sua “aura” de infância, para lembrar Benjamim (1994). No entanto, as meninas e os meninos pobres – as “outras crianças”, diz Ponte –, mesmo privadas diariamente de sua condição de criança, não têm a capacidade de conclamar as pessoas para que sua “aura” seja reconstituída. O mesmo vale para situações que exploram a sexualidade de crianças, tal como o ensaio fotográfico divulgado em setembro de 2014 pela revista Vogue, que mostra meninas em roupas ditas do vestuário adulto, e em poses parecidas às de modelos já crescidas. Imagens de prostituição (pobre) infantil não provocam, necessariamente, a mesma mobilização social que as fotografias de Vogue geraram.

A partir dessa reflexão, vamos analisar textos de crítica de mídia em torno do caso da revista: do blog Território de Maíra, publicado na Carta Capital, do blog Maternar, veiculado no site da Folha de S. Paulo e da coluna de Rodrigo Constantino, de Veja.

No primeiro caso, Maíra Kubík Mano coleta alguns depoimentos sobre o caso: de uma roteirista e de uma arquiteta (sem explicar a razão para isso), de uma artista plástica que “já realizou performances no Brasil questionando a indústria da moda” e de uma jornalista e analista de moda. A opinião da blogueira aparece claramente apenas no começo do post: “Pernas abertas, calcinha aparecendo, blusa levantada. Se fossem modelos adultas, estaríamos discutindo aqui no blog, mais uma vez, a objetificação do corpo mulheres. Mas são crianças e as fotos […] praticamente falam por si”.

No segundo caso, as autoras, jornalistas da Folha de S. Paulo publicam texto que segue estrutura noticiosa, sem clara exposição do pensamento das autoras, e com uma série de citações de especialistas na área, como advogados e psicóloga. No entanto, todas são contrárias às fotos; a revista foi procurada, mas não se pronunciou. Não houve a busca por alguma fonte que apoiasse o ensaio. O início do texto diz que a revista “foi criticada em redes sociais e acusada por um instituto de ter publicado fotos de meninas menores de idade em poses sensuais, vestidas de biquíni. Em algumas imagens, elas aparecem deitadas e com pernas abertas”.

Na coluna de Rodrigo Constantino na Veja, a crítica é politizada, no sentido institucional do termo: ele relaciona o ensaio à pedofilia, prevendo que a “esquerda revolucionária” vai defender exposições como essa: “Fotos sensuais com meninas de dez anos! Que pais compactuam com isso? A revista tenta se justificar, diz que as fotos retratam as modelos infantis em um “clima descontraído”. Então é isso: vamos estimular pequenas Lolitas com o argumento de que tudo não passa de um “clima descontraído”. Afinal, ser mais recatado com crianças é coisa de “reacionário”, não é mesmo?”.

Nos três casos, nota-se que, em primeiro lugar, não fica claro se a crítica é feita apenas à exploração das meninas modelos retratadas ou se de alguma forma outras crianças serão afetadas também. Parece haver uma certa confusão entre o estímulo à pedofilia e à sexualização precoce, como se a primeira decorresse da segunda. Em nenhum dos textos, é referido que a publicação não se destina a crianças, mas sim a adultos, que seriam os compradores da moda para os filhos. Além disso, nenhuma das críticas avalia outros ensaios da revista: uma rápida análise em seu site mostra que há várias fotos com o mesmo teor. Em suma, notam-se pouca contextualização e pouca reflexão nas críticas feitas.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s