‘Por uma crítica do visível’: Natália Keri e Sofia Guilherme analisam o programa Superstar

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O reality show Superstar, da Rede Globo, é o tema da investigação que Natália Favrin Keri, mestranda da ECA/USP, e Sofia Franco Guilherme, aluna de jornalismo também na ECA/USP, apresentam nesta terça (2), no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível. As pesquisadoras do MidiAto Eliza Casadei e Mariana Duccini farão o relato do trabalho, cujo título é “Quem são os Superstars? Uma leitura das trajetórias de artistas no reality show da TV Globo”.

O simpósio acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

 

O presente trabalho investiga a construção imagética dos ídolos da música como fenômeno midiático desenvolvido em meio e por meio de apelos visuais e do campo do imaginário. Reflete sobre a dinâmica de estabelecimento de valores no ambiente do mercado de produção e consumo cultural de massas. Este processo é observado por meio das narrativas apresentadas no reality show Superstar, veiculado pela TV Globo entre abril e julho de 2014.

No programa, 35 bandas disputaram a atenção do público e o prêmio composto pela gravação de um disco com a empresa Som Livre, mais R$ 500 mil em dinheiro e quatro automóveis. A seleção das bandas é realizada por meio de votação do público pela internet, além da avaliação de três jurados, os músicos Fábio Júnior, Ivete Sangalo e Dinho Ouro Preto. A votação é apurada em tempo real e exibida por meio de um termômetro localizado no canto esquerdo da tela.

A análise debruçou-se sobre as biografias produzidas sobre as bandas finalistas da competição e sobre o último episódio do reality show, em que a banda Malta foi escolhida campeã. É importante apontar que o formato do programa no último episódio foi alterado e a decisão foi inteiramente definida pelo voto do público. Os jurados apenas fizeram comentários sobre as apresentações e sobre a trajetória das bandas.

Esse poder do público ligado às formas de comunicação digital evidencia de certa maneira uma maior participação de diversos atores sociais na legitimação de um produto. Nesse processo decisório confluem diversos fatores, todos mediados pelo ponto de vista dos indivíduos participantes da votação. No caso do reality show, trata-se das falas dos artistas mais experientes e dos famosos, da performance musical, das entrevistas e depoimentos dos próprios artistas e da opinião dos demais membros do público.

O programa apresenta diversos espaços para expressão de opiniões sobre as bandas e o gosto musical: entrevistas com os apresentadores, depoimentos e videotapes (vts), expressão corporal durante as apresentações (gestos como cantar, dançar, bater palmas), votação e mensagens pelas redes sociais.

No entanto, o público em geral fica apartado de uma expressão presencial, e, portanto, mais significativa, podendo apenas se expressar por meio da votação e das redes eletrônicas. Todos os outros espaços são ocupados por vozes de famosos, ligados ou não ao campo musical. Mesmo a plateia, lugar tradicionalmente ocupado por fãs e pelo público em geral, fica restrita a convidados.

Cria-se, assim, uma polarização entre público especializado e público comum. Para quem deve ser direcionada a estratégia das bandas competidoras? Isto depende da dinâmica de construção da opinião e do gosto do público, e do papel das instâncias validadoras. Esta dinâmica simula a próprio mecanismo de funcionamento do showbiz. Convida à problematização da ideia corrente de uma fórmula de fabricação sucessos na música de massa, cuja repetição seria suficiente para conquistar mentes e corações da massa dominada.

Ao mesmo tempo em que decreta um suposto poder ao público, a presença do show em uma grande emissora de televisão mostra que a grande mídia ainda tem um papel importante ao dar visibilidade para grupos amadores. Esse valor é celebrado inclusive na cenografia do programa, em que uma tela móvel “esconde” a banda até que ele atinja uma meta de votos do público. A tela é uma metáfora sobre os parâmetros aceitação mercadológica dos músicos: se um grande público o apoia, o músico pode ter participação em espaços midiáticos. Mas como conquistar esse público se não houver acesso à comunicação de massa?

Na fala dos participantes, tanto nas biografias quanto nas entrevistas, os prêmios do programa ficam em segundo plano em relação à oportunidade de exposição midiática. Os músicos reafirmam que o grande atrativo é aparecer, ter exposição e ser conhecido pelo grande público. Neste sentido, as bandas finalistas comemoram poder ter se apresentado em todas as edições do programa. Além da exposição na televisão, o programa conta com uma página na internet, em que é possível acompanhar notícias e apresentações das bandas.

Nos perfis de cada banda, são destacados como o grupo se formou, sua trajetória, suas referências musicais. São criadas narrativas em torno de traços da personalidade de cada um, que criem uma empatia com o público. Ao mesmo tempo, reiteram traços de identificação para gerar reconhecimento e diferenças para mostrar a novidade, autenticidade daquela banda.

Ao direcionarmos nosso olhar para o programa Superstar, podemos levantar questões que dizem respeito não somente à sua estrutura particular, mas também críticas sobre o funcionamento do mercado cultural. Tais questões críticas se referem à construção do imaginário sobre o artista popular e as características valorizadas pelo mercado de música. Ao mesmo tempo refletem sobre implicações da posição ocupada por artistas estabelecidos e iniciantes na produção de cultura e legitimação dos bens produzidos.

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