‘Por uma crítica do visível’: pintura de Turner é tema de Rafael Venancio

cartaz-versaofinal-painel-baixaO professor da Universidade Federal de Uberlândia Rafael Duarte Oliveira Venancio debate o artigo “O movimento-cristal de navios em tempestade: a poética da pintura romântica de J. M. W. Turner” no segundo dia do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas.

A apresentação ocorre nesta terça (2), o Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia. Leandro Carabet e Mariane Murakami, do MidiAto, farão o relato do trabalho.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Tempestades terríveis e naus a pique. A mise en scène romântica litorânea de J. M. W. Turner é uma das mais chamativas na história da pintura e uma forma de prelúdio ao Impressionismo. Nesses quadros, Turner não apenas trata com fidedignidade a sua representação, mas transmite movimento através de uma cena estática.

A ideia do presente trabalho é tratar Turner como um dos antecessores da cena discursiva clamante por movimento e verossimilhança – que impulsionará tanto a fotografia como o cinema – por engendrar aquilo que chamamos de movimento-cristal. Esse conceito está intimamente ligado ao campo da poética das imagens e, o mais importante, à ideia do pensamento por imagens, crucial para o campo de estudos de crítica do visível e do imaginário.

Gilles Deleuze acreditava que o cinema é uma forma de pensamento, onde não há pensamento conceitual, mas sim por imagens.

Daí a primeira grande tese de Deleuze ao elaborar uma classificação das imagens cinematográficas: o cinema pensa com imagens-movimento e imagens-tempo, as primeiras caracterizando o cinema clássico, as segundas, o cinema moderno (MACHADO, 2009, p. 247).

As imagens-movimento são estudadas a partir da classificação de Peirce e de uma reflexão calcada nas três teses de movimento de Henri Bergson, a quem Deleuze destina a paternidade tanto da imagem-movimento quanto da imagem-tempo. Dessa forma, a imagem-movimento recebe características das categorias universais traçadas por Peirce que são a primeiridade, a segundidade e a terceiridade. Deleuze (2009, p. 289) deixa claro que:

Segundo Peirce, não há nada para lá da terceiridade: para lá, tudo se reduz a combinações entre 1, 2, 3. Ora, mas, além disso, o que é que tudo isso tem a ver com o cinema? Quando Godard diz 1, 2, 3…, não se trata apenas de acrescentar imagens umas às outras, mas de classificar tipos de imagens e de circular por esses tipos (DELEUZE, 2009, p. 291).

Assim, se o cinema é a construção continua de 1,2,3, vemos que as várias sequências fílmicas são esse amplo processo de ressignificação que vai da afeição à interpretação, passando pela ação. Dessa forma, é importante não apenas encontrar os momentos de imagem-mental, de interpretação, mas também os intercâmbios de situações (normalmente, imagens-afeição) e ações (a segundidade da imagem-movimento, a imagem-ação). A imagem-movimento é a soma de afeição, ação e mentalismo (interpretação).

E a imagem-tempo? Ora, também calcado na filosofia de Bergson, Deleuze vai falar da evolução da imagem-movimento. Para ele, a imagem-mental, fruto da terceiridade, era um passo importante do cinema, porém não o último. Afinal, “o cinema não apresenta apenas imagens, ele as cerca com um mundo” (DELEUZE, 2005, p. 87). E é a cercania desse mundo que o torna enquanto uma forma de pensamento, de filosofar. A realidade filmada/representada pelo cinema acaba se vinculando à memória e ao pensamento.

A junção indiscernível entre atual e virtual, bem como real e imaginário, percepção e lembrança, físico e mental, forma um novo tipo de imagem: a imagem-cristal. Essa união, claramente inspirada na condição hjelmsleviana de conteúdo e expressão (DELEUZE, 2005, p. 89), é uma “confusão entre real e imaginário [que] é um simples erro de fato, que não afeta a discernibilidade deles: a confusão só se faz ‘na cabeça’ de alguém” (DELEUZE, 2005, p. 88).

Com isso, a imagem-cristal se torna a mais paradigmática das imagens-tempo. E sua condição de pensamento influencia, longamente, não só o cinema, mas também as outras atividades imagéticas. É isso que notamos no que chamaremos aqui de movimento-cristal.

Ora, o movimento-cristal é a cristalização estática da união entre o real da imagem-ação (segundidade da imagem-movimento) como a imagem-cristal (vinda da imagem-tempo. É isso que vemos em Turner e que devemos desvelar em pinturas tais como The fighting temeraire tugged to her last berth to be broken up (1838), The slave ship (1840) e Snow storm: steam-boat off a harbour’s mouth (1842).

 

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