Crítica de mídia: Nise da Silveira

Cíntia Liesenberg, professora da PUC-Campinas, doutoranda na ECA/USP e investigadora do MidiAto, inaugura uma nova seção no blog: “Crítica de mídia”, com reflexão feita a partir do filme  “Nise – o coração da loucura” (Roberto Berliner, 2016). A nova página reflete as pesquisas atuais do grupo, que tem se voltado ao atual desenho dos estudos de crítica de mídia e de audiovisual, no ciclo de estudos Cartografia da Crítica. Leia abaixo o texto de Liesenberg, que faz uma ponte entre o trabalho da psiquiatra e as condições asilares dos idosos no Brasil contemporâneo:

Nise da Silveira: loucura e velhice nas tramas do institucional

Dia das mães na minha família se tornou, há alguns anos, sinônimo de dia de filme. Seja em casa, sejano cinema, estamos quase a instaurar o evento como tradição. Neste ano escolhemos “Nise – o coração da loucura”, cujo enredo trata do trabalho realizado pela psiquiatra que se tornou notória pela introdução de terapias ocupacionais na abordagem de pacientes na área da saúde mental, em meados do século XX, contrapondo-se à violência dos tratamentos utilizados então.

Situados que somos em uma família em que a esquizofrenia é fato frequente, impossível não se abalar. O filme reacendeu algumas lembranças de nossas experiências e de como hoje, ainda que precariamente, outras condições vão sendo apresentadas. Porém, para além das malhas da loucura, percebemos termos sido tocados pela trajetória e universo retratados em escala estendida para outro patamar.

Acompanhando há quase cinco anos rotinas de idosos hospitalizados ou institucionalizados, pode-se dizer que são assustadoras as semelhanças e associações possíveis entre alguns aspectos do tratamento dispensado aos doentes da saúde mental apresentados no filme na época e aquele direcionado aos idosos de hoje que necessitam de tratamento asilar.

Desde a falta de preparo para o cuidado adequado, passando pela desumanização e homogeneização dos sujeitos, até as relações de poder, de mando e desmando entre gestores dessas instituições, seus funcionários, outros profissionais e familiares dos idosos.

Como outros já fizeram, a exemplo de Debert (2012), é nítida a associação com o que nos apresenta Goffman (1974) sobre as características de uma instituição total. No que diz respeito a rotinas a serem seguidas, por exemplo: horário do café, do banho, do lanche da manhã, do almoço, deitar após o almoço, levantar para o lanche, jantar, deitar. Tudo isso no espaço das horas que cabem nos plantões estabelecidos pela casa, pensado mais na administração do trabalho de seus funcionários do que nos interesses dos residentes, ou seus clientes, utilizando o termo adotado por Nise da Silveira.

De maneira geral, nas instituições cuja rotina acompanhamos, observa-se que, quando, em horário livre, os velhos são mantidos sem a atenção devida. Por vezes domesticados, parte deles amarrados ou contidos, como o linguajar técnico apregoa, são colocados sentados em frente à TV, ligada durante todo o dia, como se lhes pudesse gerar companhia, pressionados a usarem fraldas quando ainda detêm condições de serem levados ao banheiro, silenciados em grande parte de suas particularidades. Cuidados por profissionais em geral mal preparados e em número insuficiente, são alvo de abusos constantes: quedas e engasgos – por vezes fatais – ocorridos por negligência, furtos a pertences ou dinheiro, agressões verbais, motivo de chacota e desmerecimento em função da idade associada à decrepitude e nunca à possibilidade de desenvolvimento ou aprendizado e cuidado ampliado para adequação às novas condições fisiológicas que o tempo lhes impõe ao corpo e mente.

Não são espancados, como os loucos do filme. Na maior parte das vezes consegue-se que sejam mantidos limpos, sendo o asseio algo buscado em muitas das casas, ainda que sobre os dentes não se veja necessidade de tanto cuidado. Começa por aí o descaso, a briga pela escovação; depois, outros cuidados aparentemente mais simples: datas comemorativas não existem ou são feitas como adorno, transformando os idosos em algo que resvala no grotesco. Fantasias em que não se enquadram, infantilizados, abestalhados. A morte não existe, as pessoas desaparecem e, como coisas, são substituídas. Na entrada, não há história de vida que seja compartilhada, e o distanciamento com o que se foi até então parece endossar a ideia da morte como fato corriqueiro. As pessoas simplesmente somem, como objetos quebrados que, sem serventia, vão ao lixo e logo se compra outro para tampar o vazio deixado. Vazio não de significado, mas de verba para os fundos econômicos do local.

Familiares de outros residentes não são avisados; da mesma forma que não existe ritual de entrada, não há cerimônia de despedida. A morte vira fato banal. Mas a morte nunca é fato banal, e seu tratamento como tal lembra a violência simbólica com que são tratados os idosos desses estabelecimentos de forma geral. Há exceções, espera-se, mas exceções não são a regra que deveria prevalecer.

A seriedade da questão extrapola. Discursos estatais são belos, mas a vigilância e a fiscalização não chegam a contento, profissionais sem formação são contratados e passam a atuar sem treinamentos, ainda que esses sejam anunciados. A propaganda em sites, em geral, é enganosa, e só se conhece a rotina da casa quando se está lá dentro, o que contribui para ampliar a sensação de insegurança generalizada diante da percepção de falta de possibilidade de seleção e escolha. Os problemas são omitidos, descobertos apenas por quem consegue estar presente ao lado do familiar grande parte do tempo ou mantém um cuidador particular junto ao residente. A administração em geral é autoritária, os funcionários têm medo, são sobrecarregados e lidam com o cuidar desgastante de pessoas que precisam de apoio para a consecução de atividades da vida diária de forma intensa.

Há funcionários interessados, mas o acúmulo de trabalho é tanto que, não raro, se observam os sinais do cansaço estampados em suas faces e as consequências transbordam. O clima aparentemente é cordial, mas não é preciso um convívio muito longo para que se perceba a aura pesada que se instaura e as dinâmicas de grupo que hostilizam aqueles que de alguma forma fujam ao padrão ou coloquem em risco o acobertamento de erros e descasos cometidos.

Se a loucura assusta, seja por um lado de nós que não queremos ver, pelo descontrole dos sentimentos que impera sobre a razão, ou por um raciocínio outro que não conseguimos entender, seja por outro aspecto qualquer, o distanciamento simbólico parece se fazer permitido, pois nem todos de nós seremos realmente afetados por ela um dia. A situação permite a muitos dizer que loucos são os outros, não nós.

Já quanto à velhice, não se pode afirmar o mesmo. Se a longevidade vem aumentando, bem como a qualidade de vida de sujeitos em idade mais avançada também, essa mesma longevidade nos levará a ela e em determinado momento de nosso curso de vida poderá nos tornar fragilizados, talvez socialmente isolados e nos fazer deparar com doenças que até recentemente não se via em escala como agora, a exemplo das demências como o Alzheimer ou condições de dependência de outra ordem.

Por tudo isso, é que “Nise – o coração da loucura” se faz tão fundamental. Pois, para além do percurso de uma profissional na defesa de seus ideais e da visibilidade a formas indignas do tratamento da loucura que retrata, em terreno cujas conquistas são grandes, mesmo pedindo mais esforços diante das demandas existentes e, ainda que muito se tenha avançado em tratamentos e técnicas, o filme nos remete a um universo institucional homogeneizador, domesticador, violento e autoritário.

Pela visibilidade crua da realidade a que nos arremessa, nos permite olhar também para situações semelhantes que facilmente irão nos alcançar se não nos detivermos em tempo e esforços para enfrentá-las e colocar em discussão novos caminhos e soluções para os problemas que nos apresentam, como é o caso da longevidade e do envelhecimento da população atualmente em curso, como mencionado.

De uma população mundial composta por 12% de pessoas acima dos 60 anos, em 2013, seremos 21%, em 2050, segundo dados de pesquisa internacional (ILC Brasil, 2015). Caso não morramos antes, em decorrência das características da sociedade e estrutura familiar que temos construído, precisaremos, grande parte de nós, de instituições para nos abrigar.

Não encarar a situação agora e deixar de agir sobre ela hoje será ter que se sujeitar por completo a um tipo de vida para a qual não estamos dispostos a enfrentar. Deixar as questões da velhice na invisibilidade ou na corrente de discursos que a desconstroem, porque uma realidade incômoda, é fazer-se cego para o próprio futuro como indivíduo, sujeito e ser social.

O tema é contundente, perpassa todas as esferas dos discursos cotidianos e, sendo assim, pede investimento em pesquisa, discussões públicas na busca de soluções, vontade política e ações conjugadas e realmente interessadas na construção de um melhor convívio e uma melhor vida para todos no tecido social, pois o envelhecimento pede intervenções de cunho intergeracional e transdisciplinar para que sua abordagem ampla resulte em práticas efetivas.

Complexo? Trabalhoso? Sim. Mais fácil então não olhar agora para o cenário que se apresenta. Talvez, mas ao custo de uma grande possibilidade de seremos engolidos por ele logo mais.

Referências mencionadas:
DEBERT, G. G. A reinvenção da velhice. São Paulo: Edusp/ Fapesp 2012.
GOFFMAN, I. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974.
ILC- Brasil – Centro Internacional de Longevidade Brasil. Envelhecimento ativo: um marco político em resposta à revolução da longevidade. Rio de Janeiro, 2015.

Sobre Nise da Silveira:
Filme: Nise, o coração da loucura.
Direção: Roberto Berliner
Brasil: lançamento – abril/2016

HORTA, B.C. Nise: arqueóloga dos mares. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008.

 

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2 comentários sobre “Crítica de mídia: Nise da Silveira

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