Por que Kritikos?

Em 2015, os encontros do grupo de estudos MidiAto foram dedicados à exploração do termo crítica em seu emprego para denominar um tipo de aproximação, aos seus objetos, empreendida pelos estudos no campo da comunicação. Diante de uma série diferenciada de entendimentos do termo, era necessário um tipo de mapeamento das vertentes centrais de significação, sobretudo para compreender a dimensão metodológica que as acompanha. Fui convidada a falar sobre o assunto em nosso primeiro encontro. Como a palavra é antiga e desde muito transita pelos estudos filosóficos, escolhi começar seu questionamento a partir de significações originárias, registradas e preservadas pelo meu bom e velho dicionário de grego, o Bailly (Dictionnaire Grec-Français, Paris, Hachette, 1965).

O primeiro passo consistiu em tomar o termo central, a partir do qual se deriva a palavra em português: Κριτικόϛ. Com ele acompanhamos no dicionário uma série de aplicações condensadas sob o guarda-chuva dos seguintes significados: 1) capacidade de julgar, de decidir; 2) explicar, interpretar, apreciar; 3) faculdade de pensar, de discernir (Aristóteles).

A primeira acepção remete a propriedade humana de raciocinar e, com ela, imputar valores e assumir posições. A segunda introduz, conservando o sentido de sopesar (apreciar) ou atribuir valores, a interpretação e a explicação dos dados, e a terceira remete, ao mesmo tempo, à propriedade mental e seu efeito de distinguir componentes, situações e articulações, ou seja, condições para avaliar os objetos sobre os quais se debruça o pensar.

Vemos, nessa origem, a ausência do sentido de movimento depreciativo com que a palavra crítica é tomada, comumente e vulgarmente, em nossos tempos: criticar é apontar defeitos, apontar uma falha de finalidade nas coisas do mundo. Talvez essa significação tenha brotado da acepção de sopesar, do julgamento de valor que precede uma tomada de decisão e, pulando etapas, tenha resvalado para a atividade com a qual, segundo nos ensina a psicanálise, colocamo-nos em distinção.

Fato é que o termo Κριτικόϛ diz respeito, e assim tem sido pensado ao longo de nossa história intelectual, como o princípio dos princípios, como a operação que habita qualquer método. Todo estudo crítico, toda vertente de investigação que, no passado ou no presente, se atém à palavra crítica diz respeito à observação minuciosa, à separação de elementos que compõem o campo a ser examinado, à captação das relações mantidas entre elementos. Implica uma avaliação dos modos de operação interna ao campo e de seu papel em relação ao conjunto dos campos que compõem um panorama cultural, em suma, a reflexão por excelência.

Uma crítica, nesse sentido metodológico, demanda a presença de um Κριτήριον (critério), de um instrumento com que se firma um julgamento, ou uma regra para discernir o verdadeiro do falso. Ora, os critérios se elegem pelos mais inusitados motivos, professando certa instabilidade ao sabor dos tempos. Mas, uma Κριτικόϛ permanece como uma espécie de irredutível natureza humana, pois equivale ao exercício de pensar.

Mayra Rodrigues Gomes
maio de 2016

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