Simpósio Por uma crítica do visível divulga caderno de resumos

capaO MidiAto divulga nesta quarta (4) a versão definitiva dos caderno de resumos do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível. A publicação traz um texto de apresentação e os resumos expandidos de 15 trabalhos, realizados por 24 pesquisadores. O evento ocorreu em dois dias, 25 de novembro e 2 de dezembro de 2014.

Leia abaixo trecho do texto de apresentação da publicação:

O Simpósio foi voltado aos estudos da imagem, em que a questão da crítica, mais do que um tema, representa um posicionamento teórico e metodológico a partir do qual realizar as análises, somado a outros aportes conceituais. Isso não implica, necessariamente, trabalhar apenas com imagens visuais ou audiovisuais, como fotografia, cinema ou televisão, nem apenas com o registro ficcional, embora isso também tenha sido feito. Pensar a imagem inclui o vasto campo das representações sociais, das construções imaginárias, do fantástico, das figurações mentais e tantos outros conceitos que dão conta daquilo que circula fazendo laço social para além de traços elementares. E podemos pensar no próprio texto como imagem, nos infográficos, na internet, nas telas de pintura, nos meios digitais, e em
tantas formas imagéticas verbais e/ou visuais. A variedade é um ponto valorizado para termos um panorama rico e plural dentro do que se propõe.

Cada um dos trabalhos foi pensado a partir de uma perspectiva referente à tradições críticas correntes, de modo a explorarmos as diversas possibilidades desse campo, fomentando o debate em torno dele. Foram norteados alguns pontos que são preocupações da crítica e que puderam ajudar a direcionar os objetos selecionados:

1. A análise da produção crítica em si, como um campo disciplinar.
2. A questão de especialistas e produtores autorizados a fazer a crítica.
3. A questão da audiência e do público.

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‘Por uma crítica do visível’: assista ao vídeo do último dia de simpósio

Encerrou-se na última terça-feira (2) o II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível. O evento, dividido em dois dias, teve ao todo apresentações de 15 trabalhos, realizados por 24 pesquisadores. O objetivo do encontro foi teorizar sobre o tipo de discurso das mídias (e não apenas analisá-lo ou descrevê-lo) que tradicionalmente chamamos de crítica midiática.

O seminário teve transmissão tanto pelo CJE/TV quanto pelo serviço de streaming IPTV da USP, nos dois dias de debate

Veja abaixo o vídeo com as apresentações do primeiro dia do simpósio.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=BAQAHQoZvK4&list=PL28iZe02Vqi12cNoggJJVyubA5AvPmwjS]

 

Simpósio ‘Por uma crítica do visível’ será transmitido online em instantes

cartaz-versaofinal-painel-baixaEm instantes, começa a transmissão online ao vivo o segundo dia de debates do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, realizado pelo MidiAto no CJE (Departamento de Jornalismo e Editoração) da ECA/USP. O evento será transmitido tanto pelo CJE/TV quanto pelo serviço de streaming IPTV da USP.

No simpósio, 24 pesquisadores apresentam trabalhos que abordam diferentes perspectivas da tradição crítica, com foco no debate sobre a imagem.

O objetivo do encontro é teorizar sobre o discurso das mídias – e não apenas analisá-lo ou descrevê-lo – que caracteriza aquilo que, num primeiro momento, o grupo estabelece como uma definição de crítica midiática.

‘Por uma crítica do visível’: Eliza Casadei e Mariana Duccini falam do autobiográfico e do documental

cartaz-versaofinal-painel-baixaNo segundo dia de apresentações do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas, Eliza Bachega Casadei, professora na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, e Mariana Duccini Junqueira da Silva,docente no Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, trazem o trabalho “A fotografia entre o autobiográfico e o documental: autoria e referencialidade na crítica de imagem”

O evento ocorre nesta terça (2), no auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia. As investigadoras do MidiAto Cíntia Liesenberg e Daniele Gross são as responsáveis pelo relato do artigo.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

O tensionamento entre o documental e o autobiográfico na imagem (e, especialmente, na fotografia) é um tema recorrente na obra de autores como Sophie Calle, Hélène Cixous, Annie Ernaux, Georges Perec e Agnès Varda, que tomam sob diferentes perspectivas os engendramentos que ligam o tripé formado entre a memória, a ficcionalização do eu na imagem e os efeitos de referencialidade do dispositivo, espécie de “desejo ontológico” em relação à fotografia que garante sua distinção em uma comunidade das imagens (BARTHES, 2006).

Diante disso, o objetivo do presente artigo é explorar essas diferentes perspectivas para o alinhavamento de uma crítica da imagem que se estruture para além da questão da imagem-fetiche e do punctum barthesiano e reposicione o próprio conceito de referencialidade como decorrente do deslocamento de gêneros a partir da adoção de diferentes códigos de narração e técnicas de composição imagética específicas. Sobrevém, nessa perspectiva, a concepção do realismo como um operador estético, um conjunto de protocolos que articulam a relação entre o real e sua representação conforme expectativas socialmente determinadas, o que explica a disposição valorativa que torna certas representações mais legítimas do que outras, exercício contingente a cada época e a cada contexto cultural próprios às representações.

Serão discutidas, assim, as fronteiras entre a referencialidade (fotografia como técnica) e a criação (disposição autoral, decorrente do gênero) na estruturação da imagem fotográfica. As produções analisadas trabalham com uma qualidade estética que faz aparecer novas configurações de realismo, em que a legitimidade do relato não mais se atesta pela objetividade, mas pela ênfase no lugar de onde se enuncia: o espaço de uma experiência irredutível, particular, em oposição às categorias universalizantes. Nesse sentido, as narrativas que se ordenam por um efeito de real deslizam de um realismo de matiz histórico para um realismo dos afetos, das subjetividades.

Nesse jogo, é a realidade da inscrição que toma o primeiro plano da narrativa, em que se enfatiza o envolvimento e o engajamento do narrador com o objeto de sua narração. O “realismo dos afetos”, portanto, tem na ênfase da experiência subjetiva seu valor ético e estético. É assim que as dimensões do testemunho, da autorrepresentação, do envolvimento pessoal com a matéria narrada, do sofrimento (no sentido patético) que se experimenta em primeira pessoa e, eventualmente, do amadorismo ganham compleição nas diferentes formas de expressão da contemporaneidade (entre elas, a própria fotografia documental).

A partir do entendimento de que a escritura é da ordem da performance e não da criação, a autoria é pensada não como a ação do sujeito-fotógrafo na feitura de sua obra particular, mas como o espaço a partir do qual se dá a organização discursiva das significações derivadas da fotografia (BARTHES, 2004; FOUCAULT, 2009). A autoria, portanto, é pensada como uma função e não como a estrita materialização da subjetividade no engendramento de uma obra. Em outros termos, é necessário considerar o autor como um efeito derivado de certos gêneros do discurso, ou seja, como um efeito simultâneo de um jogo estilístico, cujas regras subsumem a própria ideia do gênero, e de uma posição enunciativa.

A isso, coaduna-se a ideia de que a função-autor é também um espaço de autoridade: ela “não se forma espontaneamente como a atribuição de um discurso a um indivíduo. É o resultado de uma operação complexa que constrói certo ser de razão que se chama de autor” (FOUCAULT, 2009, p. 276) e a quem se dá um status realista e uma posição de autoridade. Toda autoria, portanto, sempre pressupõe operações de autorização de um lugar de discurso.

A partir do pressuposto de que sempre haverá, nas tipologias discursivas que contemplamos, um enunciador proposto, um lugar de onde as proposições de sentido serão irradiadas, é possível dizer que o movimento inerente à noção de autoria traduz-se em estratégias de autorização para que se ocupe esse posicionamento. Isso engendra espaços de reconhecimento e legitimidade para a produção fotográfica. Esse reconhecimento corresponde à validação de um “nós coletivo” que fornece as regras e leis de um meio circunscrito por determinações e imposições próprias, bem como por sistemas complexos de privilégios, obrigações e hierarquias.

É justamente a partir desses pressupostos que se pode pensar os modos de (autor)ização da fotografia como conceito núcleo para uma crítica da imagem.

No pacto autobiográfico, engendra-se uma relação com o verdadeiro que está no seu próprio aspecto formal, independentemente do conteúdo que serve de objeto a esta fé juramentada que sustenta um testemunho. Enquanto articulação formal, portanto, a promessa de verdade da autobiografia

Não tem a ver com o enunciado como tal, mas com a garantia de sua eficácia: o que nele está em jogo não é a função semiótica e cognitiva da linguagem como tal, mas sim, a garantia de sua veracidade e da sua realização (AGAMBEN, 2011, p. 12).

Esse aspecto é lastreado por um tipo de experiência que abrange igualmente a posição do espectador. Contemplar uma fotografia tem como correlata a disposição em colocá-la (ou não) em “situação de existência”. Tal investimento subjetivo, que se perfaz em termos dialógicos, há de levar em conta a vinculação de toda imagem com a esfera do simbólico: o domínio das relações socializadas, das convenções estabilizadas que modulam as formas de relação do sujeito com o mundo: “A imagem veicula, sob forma necessariamente codificada, um saber sobre o real” (AUMONT, 2012, p. 84).

Nesse sentido, o conceito de autoria nas imagens de tensionamento entre o autobiográfico e o documental será discutido em suas implicações éticas e estéticas, em que entram em questão os movimentos formais da memória, os pactos estabelecidos entre os participantes do discurso e as diferentes articulações dos códigos de narração propostos.

‘Por uma crítica do visível’: pintura de Turner é tema de Rafael Venancio

cartaz-versaofinal-painel-baixaO professor da Universidade Federal de Uberlândia Rafael Duarte Oliveira Venancio debate o artigo “O movimento-cristal de navios em tempestade: a poética da pintura romântica de J. M. W. Turner” no segundo dia do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas.

A apresentação ocorre nesta terça (2), o Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia. Leandro Carabet e Mariane Murakami, do MidiAto, farão o relato do trabalho.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Tempestades terríveis e naus a pique. A mise en scène romântica litorânea de J. M. W. Turner é uma das mais chamativas na história da pintura e uma forma de prelúdio ao Impressionismo. Nesses quadros, Turner não apenas trata com fidedignidade a sua representação, mas transmite movimento através de uma cena estática.

A ideia do presente trabalho é tratar Turner como um dos antecessores da cena discursiva clamante por movimento e verossimilhança – que impulsionará tanto a fotografia como o cinema – por engendrar aquilo que chamamos de movimento-cristal. Esse conceito está intimamente ligado ao campo da poética das imagens e, o mais importante, à ideia do pensamento por imagens, crucial para o campo de estudos de crítica do visível e do imaginário.

Gilles Deleuze acreditava que o cinema é uma forma de pensamento, onde não há pensamento conceitual, mas sim por imagens.

Daí a primeira grande tese de Deleuze ao elaborar uma classificação das imagens cinematográficas: o cinema pensa com imagens-movimento e imagens-tempo, as primeiras caracterizando o cinema clássico, as segundas, o cinema moderno (MACHADO, 2009, p. 247).

As imagens-movimento são estudadas a partir da classificação de Peirce e de uma reflexão calcada nas três teses de movimento de Henri Bergson, a quem Deleuze destina a paternidade tanto da imagem-movimento quanto da imagem-tempo. Dessa forma, a imagem-movimento recebe características das categorias universais traçadas por Peirce que são a primeiridade, a segundidade e a terceiridade. Deleuze (2009, p. 289) deixa claro que:

Segundo Peirce, não há nada para lá da terceiridade: para lá, tudo se reduz a combinações entre 1, 2, 3. Ora, mas, além disso, o que é que tudo isso tem a ver com o cinema? Quando Godard diz 1, 2, 3…, não se trata apenas de acrescentar imagens umas às outras, mas de classificar tipos de imagens e de circular por esses tipos (DELEUZE, 2009, p. 291).

Assim, se o cinema é a construção continua de 1,2,3, vemos que as várias sequências fílmicas são esse amplo processo de ressignificação que vai da afeição à interpretação, passando pela ação. Dessa forma, é importante não apenas encontrar os momentos de imagem-mental, de interpretação, mas também os intercâmbios de situações (normalmente, imagens-afeição) e ações (a segundidade da imagem-movimento, a imagem-ação). A imagem-movimento é a soma de afeição, ação e mentalismo (interpretação).

E a imagem-tempo? Ora, também calcado na filosofia de Bergson, Deleuze vai falar da evolução da imagem-movimento. Para ele, a imagem-mental, fruto da terceiridade, era um passo importante do cinema, porém não o último. Afinal, “o cinema não apresenta apenas imagens, ele as cerca com um mundo” (DELEUZE, 2005, p. 87). E é a cercania desse mundo que o torna enquanto uma forma de pensamento, de filosofar. A realidade filmada/representada pelo cinema acaba se vinculando à memória e ao pensamento.

A junção indiscernível entre atual e virtual, bem como real e imaginário, percepção e lembrança, físico e mental, forma um novo tipo de imagem: a imagem-cristal. Essa união, claramente inspirada na condição hjelmsleviana de conteúdo e expressão (DELEUZE, 2005, p. 89), é uma “confusão entre real e imaginário [que] é um simples erro de fato, que não afeta a discernibilidade deles: a confusão só se faz ‘na cabeça’ de alguém” (DELEUZE, 2005, p. 88).

Com isso, a imagem-cristal se torna a mais paradigmática das imagens-tempo. E sua condição de pensamento influencia, longamente, não só o cinema, mas também as outras atividades imagéticas. É isso que notamos no que chamaremos aqui de movimento-cristal.

Ora, o movimento-cristal é a cristalização estática da união entre o real da imagem-ação (segundidade da imagem-movimento) como a imagem-cristal (vinda da imagem-tempo. É isso que vemos em Turner e que devemos desvelar em pinturas tais como The fighting temeraire tugged to her last berth to be broken up (1838), The slave ship (1840) e Snow storm: steam-boat off a harbour’s mouth (1842).

 

‘Por uma crítica do visível’: Leandro Carabet e Mariane Murakami analisam a gamificação na educação

cartaz-versaofinal-painel-baixaOs pós-graduandos pela ECA/USP Leandro Carabet e Mariane Murakami são os autores de “Gamificação na educação: quem está no controle?”, trabalho que será debatido nesta terça (2), no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas. As investigadoras do MidiAto Natália Keri e Sofia Franco Guilherme são encarregados do relato do trabalho.

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Os videogames tornaram-se um dos produtos culturais mais pervasivos, rentáveis e com grande influência na sociedade. Com esse exponencial crescimento, educadores e pesquisadores têm mostrado grande interesse nos efeitos dos videogames nos jogadores e como alguns desses aspectos podem estar atrelados à aprendizagem em qualquer fase da vida. Enquanto algumas perspectivas temem que essas mídias possam fomentar a violência, a agressão, a imagem negativa da mulher ou mesmo o isolamento social, há uma tendência cada vez mais crescente de se tirar proveito de jogos digitais em sala de aula, como grande aliado no ensino-aprendizagem.

A convivência intensa dos alunos com as diversas mídias em seu cotidiano tem levado a escola a refletir as suas práticas. Com o objetivo de captar a atenção de um aluno geralmente pouco engajado que, por vezes, tem seu foco disputado por uma série de outros aparelhos tecnológicos, a escola tenta entrar nessa seara digital investindo em jogos digitais educativos. Sendo assim, no esforço de repaginar uma certa imagem desgastada do ensino tradicional, a escola tenta se apropriar do imaginário do videogame, familiar aos alunos.

Essas estratégias em sala de aula lançam mão de elementos de jogos (no caso da gamificação do ambiente educacional) ou mesmo utilizam os jogos como material didático, a fim de engajar os alunos. A narrativa desses games torna-se um elemento importante de investigação, tanto em função do agenciamento do aprendiz-jogador, quanto da interatividade promovida por esses jogos, nos diversos caminhos narrativos possibilitados dentro de uma história. Nos videogames aplicados à educação, apesar da infinidade de possibilidades narrativas, é possível afirmar que existem alguns padrões de narratividade e interatividade que visam atingir esses objetivos de ensino-aprendizagem. Podemos citar, segundo Marie Laure Ryan, dois tipos de interação, que vão determinar as narratividades desses jogos: o externo/exploratório, no qual o aprendiz-jogador experimenta o jogo externamente, como observador das ações; e o interno/ontológico, no qual o aprendiz-jogador pode interagir no ambiente como personagem. Esse último modelo preenche de fato as condições básicas da narratividade, convidando o jogador a se engajar no jogo de papéis e a realizar ações que alcancem metas pretendidas, realizando, segundo a autora, um “ato de imaginação”.

Porém, um olhar observador para as experiências práticas de gamificação da educação nos leva à seguinte problemática: em um primeiro momento, falamos de um investimento na apropriação do imaginário do game, com o esforço de resgatar a imagem da educação. Agora, no entanto, diante das propostas circulantes no mercado de educação, é possível observar que a maioria deles tende à interação observadora, em que o aluno continua em sua passividade de espectador. Esses pontos nos levam a pensar: no cenário atual, ocorre de fato interatividade ou se trata apenas de uma “representação de interatividade”, a fim de inserir o ambiente escolar no mundo digital?

Na sala de aula, a mobilidade, interatividade e colaboração são elementos intrínsecos no dia a dia dos jovens, reforçando a emergência de uma nova cultura baseada na participação dos alunos e na capacidade deles em migrar de uma mídia a outra, realizando leituras críticas desses conteúdos, ou, como afirma Jenkins (2012), participando criticamente desses textos.

Sendo assim, lançamos mais uma pergunta: já que, ao usar a gamificação “observadora”, a escola está apenas recriando a mesma metodologia da sala de aula com uma imagem nova, não seria na gamificação ontológica que o aluno teria mais possibilidades para ampliar sua percepção crítica do mundo?

Além disso, já que o aluno convive com mais de uma mídia em seu cotidiano, não seria na confluência dessas diversas mídias, inclusive do videogame, que ele encontraria a diversidade de imagens para ampliar seu repertório?

Acreditamos, portanto, que as narrativas transmidiáticas devem ser contempladas nas estratégias educacionais em que são abordados conteúdos midiáticos. Mais do que isso, propomos que na sociedade hiperconectada e em que as transformações tecnológicas convergem para a educação, não é mais suficiente falarmos apenas de “letramento digital ou midiático”. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo realizar uma análise crítica sobre a gamificação do ambiente educacional, das formas de interatividade e narratividade presentes nessas estratégias e como essas questões revelam imaginários e concepções sobre a interface entre educação, sociedade e tecnologia. Por fim, propomos uma reflexão acerca de uma abordagem educacional do uso do videogame que considere a convergência das mídias e os sentidos produzidos quando pontes são construídas entre o videogame, livros, filmes etc., em uma perspectiva de desenvolvimento de um letramento transmidiático.

‘Por uma crítica do visível’: Cíntia Liesenberg e Daniele Gross falam sobre imagens da pobreza

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Cíntia Liesenberg, professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, e Daniele Gross, doutoranda pela ECA/USP, debatem as “Imagens da pobreza como paisagem ideológica” no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, cujo segundo dia de apresentações ocorre nesta terça (2). Juliana Doretto, do MidiAto, fará o relato da investigação. 

O simpósio ocorre no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

A análise é motivada, entre outros aspectos, por artigo de Eduardo Peñuela Cañizal (2013) que aborda as imagens sob a rubrica de uma categoria específica, isto é, como paisagem em uma narrativa ou texto maior. Tais imagens, apreendidas assim, são tidas como componentes do entorno que, em um quadro, reúnem “configurações de objetos pertencentes ao mundo da natureza ou da cultura” (PEÑUELA CAÑIZAL, 2013, p. 96). Dessa forma, elas próprias como narrativas, atuam como enquadramentos que direcionam o olhar e a interpretação de imagens ou cenas e os sentidos ou efeitos de sentidos associados a elas. Como um tipo de framing, isto é, um conjunto de traços semânticos ordenados a fim de estabelecer uma plataforma de interpretação destinada a um determinado enfoque compreensivo de um texto (PEÑUELA CAÑIZAL, 2013, p. 101). Tais imagens, como paisagem, funcionam então como apresentação de mundo, como um recorte por visadas de valores e sentidos em que se situam padrões ideológicos e de ação e posicionamentos diante da vida.

É a partir desse olhar que o objeto de interesse para esse trabalho passa a ser estudado: imagens da pobreza como paisagem, em sua composição como elemento da narrativa que atribui assim efeitos de sentido e significados que recortam e condicionam elementos textuais, configurando aquilo que sob um enfoque específico permite ascender ao status da visibilidade.

É nesse terreno que o conceito de representações sociais pode ser evocado, como representações de algo ou alguém, cujo conteúdo se torna significante como elemento da ordem simbólica que opera ao fazer sentido para uma comunidade, com eficácia que se amplia à medida que são apagadas as marcas de sua formação como construção, ao serem tomadas como naturalizadas (MOSCOVICI, 2011).

Estabelecem, desse modo, o lugar do “eu” e do “outro”, do familiar e do não familiar, do adequado e do inadequado a partir de um protótipo padrão que ganha fixidez, torna-se cristalizado, mas que, no entanto, pode ser modificado ou se modifica a partir da instauração de elementos que alterem os sentidos, relações e conteúdos a ele relacionados.

O estudo pauta-se, então, pela observação de políticas de representação acerca da pobreza, como elemento dotado de forte poder simbólico nos direcionamentos conferidos à narrativa. Mas, também, da própria conformação da pobreza como objeto em estudo, na medida em que tais políticas referem-se a recorrências e linhas diretivas de sentido e significado que podem ser atrelados a ela, na construção de enquadramentos e fixação ou transformação de olhares sobre o universo que engendra a seu redor.

Para tanto, o trabalho utiliza como aporte o filme O contador de histórias, de Luiz Villaça (2009), baseado na trajetória de vida de Roberto Carlos Ramos, que, na infância, é deixado pela mãe na Fundação de Bem Estar ao Menor (FEBEM), na época de sua criação pelo governo, nos anos 70 e da relação que se estabelece entre ele e pedagoga francesa, em pesquisa desenvolvida no Brasil.

Tal encontro se instaura pelo lugar que o menino ocupa na instituição, como sujeito “desviante” em relação à formação domesticadora proposta, mas também pelo teor imagético de seus relatos, dotados de forte veio criativo por meio da imaginação de outras versões tomadas por ele como possíveis e histórias fantásticas que visualiza como retrato e transformação de seu cotidiano. As relações entre realidade e fantasia são a tônica inicial que desencadeia parte da narrativa e um olhar específico e interessado da pesquisadora para o infante.

Apoiando-se ainda em outros autores, como Ítalo Calvino e Vera da Silva Telles, o trabalho analisa, então, as imagens da pobreza como paisagens que surgem em cenas diversas e os sentidos atribuídos às representações sociais em seu entorno, na busca pelas variações e recorrências que se estabelecem sobre o objeto na tentativa de encontro de políticas de representação, ou ainda, na busca por “(…) diferentes maneiras de apropriação dos mecanismos de produção da representação” (HAMBURGER, 2005, p. 209, grifos do original). Isso, uma vez que, simbólicas por natureza, tais imagens determinam visadas, comportamentos e tomadas de posição, configurando as ações e assim também as formas de inscrição dos sujeitos no mundo e as implicações decorrentes de todo esse universo de sentidos e gestos que constituem nosso cotidiano na contemporaneidade, em um mundo e época que tem na pobreza um dos pilares de sustentação de seus sistemas econômico e social, como também, na multiplicação e circulação de imagens novas configurações de interação humana e conviviabilidade.

‘Por uma crítica do visível’: alteridade na televisão é tema de José Lobato

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“Olhar, experiência e mediação nas narrativas visuais de alteridade: por uma análise estrutural das imagens do Outro no espaço televisivo” é o título do trabalho que será apresentado por José Augusto Mendes Lobato no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, nesta terça (2). Lobato é doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. O investigador do MidiAto Rafael Duarte O. Venancio fará o relato do artigo.

O evento ocorre no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Já avançadas em termos de abordagens e procedimentos metodológicos, as discussões sobre as representações de identidade são um objeto clássico de estudo no campo da comunicação social. Dos estudos culturais às ciências da linguagem, diferentes referenciais teóricos têm sido aplicados no intuito de compreender de que modo determinados grupos ou comunidades são convertidos em discurso e inscritos no fluxo das mídias. Daí nascem noções clássicas, como a de narrativa da nação (HALL, 2001) e a de escrita da tradição (BHABHA, 1998), que pressupõem a existência dos processos discursivos como forma de sedimentação de saberes, valores e culturas.

É a partir desses debates teóricos que podemos mapear a relevância dos enunciados sobre o mundo: além de servir à “transmissão do ethos comunitário, ou seja, de tradições e modos de ser”, como diz Sodré (2009, p.180), as narrativas dão forma às identidades coletivas, reforçando representações sociais (MOSCOVICI, 2003), e trabalham a favor da coesão e do sentido, conferindo legitimidade aos grupos nelas representados. Ou seja, o discurso, em suas vertentes verbal, imagética, sonora, gestual etc., é entendido não apenas como processo informativo, mas também autoconfirmativo, ao determinar e reforçar os traços visíveis do eu/nós e mirar a identificação contínua.

Nossa proposta é aplicar tais linhas de análise a um processo tão complementar, quanto frequente: o das representações sobre o Outro articuladas em narrativas de informação e entretenimento. Tal ideia se justifica ao levarmos em conta a relação de interdependência entre identidade e alteridade: se, de fato, a realização do sujeito se dá somente na linguagem e diante do Outro, como aponta Freitas (1992, p. 54), podemos entender que, por razões as mais diversas, o próximo e o distante são categorias irremediavelmente entrelaçadas e tensionadas na textualidade midiática.

Tomando a televisão como objeto, buscaremos compor uma metodologia de análise estrutural dos discursos imagéticos que convidam à experiência de alteridade – ou seja, ao contato mediado das audiências com o Outro, que tem sua singularidade e materialidade narrativizadas a partir dos pressupostos e estéticas do audiovisual. Para isso, três campos de análise são essenciais: os estudos sobre representações, discursos e narrativas, ancorados nas ciências da linguagem e na psicologia social; trabalhos que debatem a questão da imagem, suas atribuições comunicacionais e os efeitos de sua transposição ao sistema midiático; e, também, estudos recentes sobre gêneros, formatos e o estatuto cultural da televisão na contemporaneidade.

Essas referências nos permitem abordar a narrativa televisiva a partir daquilo que ela reverbera de experiências simbólicas essenciais ao homem desde a Antiguidade – a saber, a produção de enunciados e imagens que explicam o mundo, demarcam sentidos e, como afirma Gomes (2003), definem aquilo que dele torna visível e, principalmente, vivível. É em função de uma “vontade de verdade”, nos termos de Foucault (1996), que o discurso disciplina, instaura regimes de visibilidade e nos oferece molduras para enquadrar experiências, com implicações diretas na configuração do que, nelas, é familiar ou exótico.

Adicionalmente, somos instados a compreender que textos e imagens são campos privilegiados para aquilo que Moscovici (2003, p. 89) denomina rotinização: processo psíquico-comunicacional que torna os indivíduos “mais familiarizados com objetos e ideias incompatíveis”, podendo, desse modo, se conectar a eles. Sendo as representações sociais mecanismos de redução de familiaridade, como diz o autor, aferimos que todo aparato discursivo – inclusive o visual-midiático – trabalha no rumo de propiciar identificações e rotinizar olhares. Inclusive, e principalmente, quando o assunto central do enunciado é um universo cultural ou geograficamente distante.

Em suma, as narrativas diaspóricas ou – como denominamos – de alteridade, que pressupõem o deslocamento, a instabilidade e a assunção do Outro e das fissuras que o demarcam na linguagem, são um objeto de análise fecundo aos estudos críticos sobre a imagem. Resta uma questão: como mapear as estruturas e estratégias das narrativas de televisão que versam sobre a alteridade? Propomos, como ponto de partida, a utilização de três hipóteses oriundas de diferentes âmbitos dos estudos visuais: a imagem indicial, conforme os raciocínios de Dubois (1994); a imagem espetacular, segundo Debord (1997); e a imagem complexa, abordada nos estudos de Català (2005). Cada uma destas linhas oferece propostas metodológicas diferentes para conceituar os efeitos e, principalmente, a natureza das representações imagéticas.

De maneira preliminar, observamos que alguns dos mecanismos utilizados para demarcar a alteridade no texto televisivo são os jogos de oposição; estratégias testemunhais (via singularização/personalização do Outro); a produção de efeitos de real, via referencialidade e produção da verossimilhança (BARTHES, 1988; GOMES, 2000); e a criação de fronteiras semiológicas (LOTMAN, 1998). Para fins de exemplificação, observaremos episódios do programa O mundo segundo os brasileiros, reality show da Band que propõe apresentar grandes cidades ao redor do mundo a partir da perspectiva de brasileiros que nelas vivem. Assim, pode-se mapear e construir linhas de análise que permitam abarcar a complexa teia de sentidos das narrativas de alteridade, independentemente dos gêneros ou formatos televisivos nos quais se inscrevem.

‘Por uma crítica do visível’: Natália Keri e Sofia Guilherme analisam o programa Superstar

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O reality show Superstar, da Rede Globo, é o tema da investigação que Natália Favrin Keri, mestranda da ECA/USP, e Sofia Franco Guilherme, aluna de jornalismo também na ECA/USP, apresentam nesta terça (2), no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível. As pesquisadoras do MidiAto Eliza Casadei e Mariana Duccini farão o relato do trabalho, cujo título é “Quem são os Superstars? Uma leitura das trajetórias de artistas no reality show da TV Globo”.

O simpósio acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

 

O presente trabalho investiga a construção imagética dos ídolos da música como fenômeno midiático desenvolvido em meio e por meio de apelos visuais e do campo do imaginário. Reflete sobre a dinâmica de estabelecimento de valores no ambiente do mercado de produção e consumo cultural de massas. Este processo é observado por meio das narrativas apresentadas no reality show Superstar, veiculado pela TV Globo entre abril e julho de 2014.

No programa, 35 bandas disputaram a atenção do público e o prêmio composto pela gravação de um disco com a empresa Som Livre, mais R$ 500 mil em dinheiro e quatro automóveis. A seleção das bandas é realizada por meio de votação do público pela internet, além da avaliação de três jurados, os músicos Fábio Júnior, Ivete Sangalo e Dinho Ouro Preto. A votação é apurada em tempo real e exibida por meio de um termômetro localizado no canto esquerdo da tela.

A análise debruçou-se sobre as biografias produzidas sobre as bandas finalistas da competição e sobre o último episódio do reality show, em que a banda Malta foi escolhida campeã. É importante apontar que o formato do programa no último episódio foi alterado e a decisão foi inteiramente definida pelo voto do público. Os jurados apenas fizeram comentários sobre as apresentações e sobre a trajetória das bandas.

Esse poder do público ligado às formas de comunicação digital evidencia de certa maneira uma maior participação de diversos atores sociais na legitimação de um produto. Nesse processo decisório confluem diversos fatores, todos mediados pelo ponto de vista dos indivíduos participantes da votação. No caso do reality show, trata-se das falas dos artistas mais experientes e dos famosos, da performance musical, das entrevistas e depoimentos dos próprios artistas e da opinião dos demais membros do público.

O programa apresenta diversos espaços para expressão de opiniões sobre as bandas e o gosto musical: entrevistas com os apresentadores, depoimentos e videotapes (vts), expressão corporal durante as apresentações (gestos como cantar, dançar, bater palmas), votação e mensagens pelas redes sociais.

No entanto, o público em geral fica apartado de uma expressão presencial, e, portanto, mais significativa, podendo apenas se expressar por meio da votação e das redes eletrônicas. Todos os outros espaços são ocupados por vozes de famosos, ligados ou não ao campo musical. Mesmo a plateia, lugar tradicionalmente ocupado por fãs e pelo público em geral, fica restrita a convidados.

Cria-se, assim, uma polarização entre público especializado e público comum. Para quem deve ser direcionada a estratégia das bandas competidoras? Isto depende da dinâmica de construção da opinião e do gosto do público, e do papel das instâncias validadoras. Esta dinâmica simula a próprio mecanismo de funcionamento do showbiz. Convida à problematização da ideia corrente de uma fórmula de fabricação sucessos na música de massa, cuja repetição seria suficiente para conquistar mentes e corações da massa dominada.

Ao mesmo tempo em que decreta um suposto poder ao público, a presença do show em uma grande emissora de televisão mostra que a grande mídia ainda tem um papel importante ao dar visibilidade para grupos amadores. Esse valor é celebrado inclusive na cenografia do programa, em que uma tela móvel “esconde” a banda até que ele atinja uma meta de votos do público. A tela é uma metáfora sobre os parâmetros aceitação mercadológica dos músicos: se um grande público o apoia, o músico pode ter participação em espaços midiáticos. Mas como conquistar esse público se não houver acesso à comunicação de massa?

Na fala dos participantes, tanto nas biografias quanto nas entrevistas, os prêmios do programa ficam em segundo plano em relação à oportunidade de exposição midiática. Os músicos reafirmam que o grande atrativo é aparecer, ter exposição e ser conhecido pelo grande público. Neste sentido, as bandas finalistas comemoram poder ter se apresentado em todas as edições do programa. Além da exposição na televisão, o programa conta com uma página na internet, em que é possível acompanhar notícias e apresentações das bandas.

Nos perfis de cada banda, são destacados como o grupo se formou, sua trajetória, suas referências musicais. São criadas narrativas em torno de traços da personalidade de cada um, que criem uma empatia com o público. Ao mesmo tempo, reiteram traços de identificação para gerar reconhecimento e diferenças para mostrar a novidade, autenticidade daquela banda.

Ao direcionarmos nosso olhar para o programa Superstar, podemos levantar questões que dizem respeito não somente à sua estrutura particular, mas também críticas sobre o funcionamento do mercado cultural. Tais questões críticas se referem à construção do imaginário sobre o artista popular e as características valorizadas pelo mercado de música. Ao mesmo tempo refletem sobre implicações da posição ocupada por artistas estabelecidos e iniciantes na produção de cultura e legitimação dos bens produzidos.

‘Por uma crítica do visível’: Fernanda Budag e Seane Melo discutem rolezinho e marcas jovens

cartaz-versaofinal-painel-baixaFernanda Elouise Budag, doutoranda pela ECA/USP, e  Seane Melo, mestranda pela mesma instituição, são as autoras do artigo “’Eu sou rolezeira’: um estudo crítico de imagens e imaginários de marcas jovens”, que será apresentado nesta terça (2), no segundo dia do II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível. O relato do trabalho será feito por José Augusto Lobato, também do MidiAto.

O evento acontece no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

Num mundo permeado e atravessado por imagens, tomamos justamente as imagens como nosso objeto de estudo. Imagem assumida em suas duas dimensões: (1) a imagem mental, da ordem do imaginário, que se assenta numa cultura e é repassada adiante; e (2) a imagem enquanto materialidade, imagem física, linguagem, veículo de uma multiplicidade de sentidos. Nesse contexto, articulado a nosso repertório prévio em estudos do consumo e da linguagem que estão no pano de fundo, propomos estudar as imagens postas em circulação por marcas e os imaginários negociados a partir delas por jovens urbanas.

Trata-se de uma proposta de crítica das imagens publicitárias em dois níveis: 1) buscando a compreensão dos imaginários que são conscientemente mobilizados pelas marcas, visando a sedução do consumidor; 2) e confrontando estes imaginários com as apropriações feitas pelos seus consumidores, que podem se manifestar em novas imagens materiais e em novos imaginários.

Com base em um vídeo, de janeiro de 2014, com depoimentos de “rolezeiras”, levantamos marcas que fazem parte do cotidiano de jovens urbanos da periferia de São Paulo (SP). Assim, definidas as marcas – Melissa, Quiksilver, Nike, Hollister, Aeropostale e Oakley (Juliet) –, selecionamos imagens postas em circulação pelas marcas nas redes sociais (Facebook e Instagram), no período que abrange a data de publicação do mencionado vídeo das “rolezeiras” e que marcou as ocorrências dos rolezinhos: dezembro de 2013 a janeiro de 2014.

Nesta pesquisa, entendemos imaginário como um enquadramento, ou, nos termos de Durand (2012), como uma referência ou conjunto de atitudes imaginativas do homem que se manifestam através do discurso. Dito isto, recorremos à noção de arquétipo, como “imagens primordiais” que fazem parte da experiência humana, para definir que valores identitários as marcas acima mencionadas pretendiam construir.

Identificados os arquétipos, buscamos colocá-los em crise com a imagem e o discurso dos jovens da periferia paulista no vídeo supracitado. Para tensionar o imaginário marcário, em primeiro lugar, identificamos o local de recepção destes consumidores. O consumo dos jovens de periferia deve ser avaliado tanto em um contexto global quanto nacional. Por um lado, o fenômeno de veneração de marcas globais por jovens de periferia é recorrente em outros países. Por outro, o consumo dos jovens brasileiros é fruto de um contexto recente de expansão do consumo por parte dos grupos populares proporcionado por políticas públicas, bem como de um cenário de efervescência e insatisfação política cujo símbolo são as manifestações de junho de 2013.

Assim, o que observamos em três minutos de imagens de jovens da periferia em um parque de São Paulo é a apropriação possível dos arquétipos vendidos pelas marcas a partir desse local de recepção. O resultado é a perfuração desses valores identitários, pois enquanto tentam reproduzir os valores hegemônicos recorrendo aos mesmos bens de consumo, os jovens da periferia modificam esse imaginário por meio de suas atitudes e práticas. O ideal do surf, do esporte e da aventura (ou simplesmente o arquétipo do explorador) acionados por muitas das marcas aqui analisadas é substituído pelo ideal da rebeldia e da ostentação, que representa uma tentativa de aproximação do status da riqueza, principalmente entre os homens, vistos como provedores de bens para as mulheres. Dessa forma, acreditamos que os imaginários das marcas acabam se convertendo em outros arquétipos (o fora da lei, o governante etc.), em virtude das condições de recepção de seus consumidores.