‘Por uma crítica do visível’: Cíntia Liesenberg e Daniele Gross falam sobre imagens da pobreza

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Cíntia Liesenberg, professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, e Daniele Gross, doutoranda pela ECA/USP, debatem as “Imagens da pobreza como paisagem ideológica” no II Simpósio Linguagem e Práticas Midiáticas: Por uma crítica do visível, cujo segundo dia de apresentações ocorre nesta terça (2). Juliana Doretto, do MidiAto, fará o relato da investigação. 

O simpósio ocorre no Auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, a partir das 14h. Não é necessária a inscrição prévia.

Leia abaixo o resumo expandido da pesquisa:

A análise é motivada, entre outros aspectos, por artigo de Eduardo Peñuela Cañizal (2013) que aborda as imagens sob a rubrica de uma categoria específica, isto é, como paisagem em uma narrativa ou texto maior. Tais imagens, apreendidas assim, são tidas como componentes do entorno que, em um quadro, reúnem “configurações de objetos pertencentes ao mundo da natureza ou da cultura” (PEÑUELA CAÑIZAL, 2013, p. 96). Dessa forma, elas próprias como narrativas, atuam como enquadramentos que direcionam o olhar e a interpretação de imagens ou cenas e os sentidos ou efeitos de sentidos associados a elas. Como um tipo de framing, isto é, um conjunto de traços semânticos ordenados a fim de estabelecer uma plataforma de interpretação destinada a um determinado enfoque compreensivo de um texto (PEÑUELA CAÑIZAL, 2013, p. 101). Tais imagens, como paisagem, funcionam então como apresentação de mundo, como um recorte por visadas de valores e sentidos em que se situam padrões ideológicos e de ação e posicionamentos diante da vida.

É a partir desse olhar que o objeto de interesse para esse trabalho passa a ser estudado: imagens da pobreza como paisagem, em sua composição como elemento da narrativa que atribui assim efeitos de sentido e significados que recortam e condicionam elementos textuais, configurando aquilo que sob um enfoque específico permite ascender ao status da visibilidade.

É nesse terreno que o conceito de representações sociais pode ser evocado, como representações de algo ou alguém, cujo conteúdo se torna significante como elemento da ordem simbólica que opera ao fazer sentido para uma comunidade, com eficácia que se amplia à medida que são apagadas as marcas de sua formação como construção, ao serem tomadas como naturalizadas (MOSCOVICI, 2011).

Estabelecem, desse modo, o lugar do “eu” e do “outro”, do familiar e do não familiar, do adequado e do inadequado a partir de um protótipo padrão que ganha fixidez, torna-se cristalizado, mas que, no entanto, pode ser modificado ou se modifica a partir da instauração de elementos que alterem os sentidos, relações e conteúdos a ele relacionados.

O estudo pauta-se, então, pela observação de políticas de representação acerca da pobreza, como elemento dotado de forte poder simbólico nos direcionamentos conferidos à narrativa. Mas, também, da própria conformação da pobreza como objeto em estudo, na medida em que tais políticas referem-se a recorrências e linhas diretivas de sentido e significado que podem ser atrelados a ela, na construção de enquadramentos e fixação ou transformação de olhares sobre o universo que engendra a seu redor.

Para tanto, o trabalho utiliza como aporte o filme O contador de histórias, de Luiz Villaça (2009), baseado na trajetória de vida de Roberto Carlos Ramos, que, na infância, é deixado pela mãe na Fundação de Bem Estar ao Menor (FEBEM), na época de sua criação pelo governo, nos anos 70 e da relação que se estabelece entre ele e pedagoga francesa, em pesquisa desenvolvida no Brasil.

Tal encontro se instaura pelo lugar que o menino ocupa na instituição, como sujeito “desviante” em relação à formação domesticadora proposta, mas também pelo teor imagético de seus relatos, dotados de forte veio criativo por meio da imaginação de outras versões tomadas por ele como possíveis e histórias fantásticas que visualiza como retrato e transformação de seu cotidiano. As relações entre realidade e fantasia são a tônica inicial que desencadeia parte da narrativa e um olhar específico e interessado da pesquisadora para o infante.

Apoiando-se ainda em outros autores, como Ítalo Calvino e Vera da Silva Telles, o trabalho analisa, então, as imagens da pobreza como paisagens que surgem em cenas diversas e os sentidos atribuídos às representações sociais em seu entorno, na busca pelas variações e recorrências que se estabelecem sobre o objeto na tentativa de encontro de políticas de representação, ou ainda, na busca por “(…) diferentes maneiras de apropriação dos mecanismos de produção da representação” (HAMBURGER, 2005, p. 209, grifos do original). Isso, uma vez que, simbólicas por natureza, tais imagens determinam visadas, comportamentos e tomadas de posição, configurando as ações e assim também as formas de inscrição dos sujeitos no mundo e as implicações decorrentes de todo esse universo de sentidos e gestos que constituem nosso cotidiano na contemporaneidade, em um mundo e época que tem na pobreza um dos pilares de sustentação de seus sistemas econômico e social, como também, na multiplicação e circulação de imagens novas configurações de interação humana e conviviabilidade.

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Investigadores do MidiAto apresentam trabalhos na Socine; saiba mais

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A última edição do encontro da Socine (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual), ocorrido em Fortaleza (CE), no começo deste mês, teve a presença de quatro investigadores do MidiAto, que apresentaram parte de suas pesquisas. Os textos ainda não estão disponíveis online.

Rosana de Lima Soares, professora da ECA e uma das líderes do MidiAto, participou do Seminário temático Gêneros cinematográficos: História, teoria e análise de filmes. Com o trabalho “Novos realismos no cinema e na televisão: visibilidades intertextuais”, Rosana trouxe a proposta de estudar discursos das mídias de caráter realista – documentário e jornalismo – para estabelecer uma análise contrastiva entre eles. A professora, em seu texto, diz que “o estabelecimento das fronteiras entre fato e relato se faz no tensionamento dessas posições, estabelecendo novos realismos e alargando os limites entre ‘referencialidade’ e “ficcionalidade’ em narrativas audiovisuais, contribuindo para a reflexão sobre o estatuto da imagem na contemporaneidade”.

“A singularidade suplementada: Homem comum, de Carlos Nader” foi o trabalho trazido pela professora e doutora Mariana Duccini Junqueira da Silva. No resumo de seu texto, ela diz: ” Engendrado pelo encontro intersubjetivo e pela duração compartilhada que se converte na experiência do filme, o documentário pode acolher as expressões do homem comum em uma perspectiva alheia às fixações em um tipo ou à conversão do ordinário em transcendente”. Assim, ela propõe uma análise do filme Homem comum, “com o intuito de percorrer estratégias que, se a um turno reconhecem uma singularidade não-determinista ao personagem, por outro suplementam seus gestos, recobrindo-os com o matiz do extraordinário”.

Daniele Gross, doutoranda na ECA/USP, apresentou o trabalho “Díspares ou semelhantes? O feminino representado em Antônia e Suburbia”, na sessão Cinema e gênero. Na pesquisa, ela faz uma análise sobre a representação do feminino na teledramaturgia nacional, por meio de estudo comparativo entre dois programas (Antônia e Suburbia, ambos apresentados pela Rede Globo) e a mulher enunciada em seus discursos. A pesquisa também tenta responder se a mulher carregada nesses programas é um simulacro da sociedade em que estamos instaurados, ou se apresenta um perfil diferente do padrão hegemônico estabelecido.

Também doutorando na ECA, Felipe da Silva Polydoro trouxe o texto “Flagrantes de junho: uma análise do documentário Com vandalismo”. O pesquisador faz uma análise comparativa do documentário (que tematiza os protestos de rua no Brasil tendo como cenário a cidade de Fortaleza), com vídeos digitais anônimos produzidos durante o mesmo acontecimento. Nesse estudo, ele debate temas como a urgência das imagens; o efeito de real que transmite a sensação de presença sem ocultar o dispositivo de filmagem; e a posição de contradiscurso em relação às narrativas hegemônicas.

Daniele Gross analisa a revista Raça em artigo na Parágrafo, da Fiam

Capa da revista Raça, da editora Escala
Capa da revista Raça, da editora Escala

“Raça Identificada: a quebra da invisibilidade negra” é o título do mais novo artigo publicado por Daniele Gross, doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP e investigadora do MidiAto. O trabalho acaba de ser divulgado pela última edição da Parágrafo, revista científica de comunicação social da Fiam-Faam.

Tenha acesso ao texto completo clicando texto aqui

 

Investigadoras discutem a narrativa sobre a favela no audiovisual

[Publicações do MidiAto]

Debater a favela sob a ótica de cinco produções audiovisuais. Daniele Gross e Paula Paschoalick, do MidiAto, apresentaram dados dessa pesquisana revista GEMInIS, da Universidade Federal de São Carlos. O estudo articula uma análise das narrativas migrantes e suas proposições de perspectivas para o futuro da população favelada brasileiras em obras audiovisuais entre as décadas de 1990 e 2007, período da retomada comercial da produção cinematográfica no país.

Foram analisadas as narrativas fílmicas das produções: “Notícias de uma Guerra Particular”, “Palace II”, “Cidade de Deus”, “Cidade dos Homens” (série) e “Cidade dos Homens” (filme), na tentativa de delinear suas propostas discursivas sobre a favela e principalmente as perspectivas de futuro que cada uma dessas obras apresenta para essa parcela socialmente marginalizada da sociedade.

Referências: 

GROSS, Daniele; PASCHOALICK, Paula. “A favela: narrativas migrantes e perspectivas de futuro em cinco produções audiovisuais”. In: GEMInIS, São Carlos, n. 1, ano 4, 2013.

Artigo analisa revista Raça Brasil e mídia negra

[Publicações do MidiAto]

novosolhares

Em Espaços Midiáticos e Contraestigmatização – artigo publicado em Novos Olhares: Revista de Estudos Sobre Práticas de Recepção a Produtos Midiáticos, do Programa de Pós Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) da ECA/USP –, Daniele Gross discute o papel da revista Raça Brasil na valorização do negro brasileiro.

O artigo se compõe de uma reconstituição de parte da trajetória da imprensa no Brasil, em específico da mídia negra. Aborda também o mercado revisteiro e sua segmentação e informações sobre Raça Brasil, revista mensal e comercial, que se transformou no maior sucesso midiático desse segmento e que, desde seu início, teve como um de seus principais objetivos reverter o quadro de invisibilidade social desse grupo étnico. Dessa forma, Gross intenta debater os efeitos que um espaço midiático pode gerar na contraestigmatização dos sofrimentos impetrados às minorias sociais.

Referências:

GROSS, Daniele.  Espaços Midiáticos e Contraestigmatizaçã o: Raça Brasil e a valorização do negro brasileiro. Novos Olhares. São Paulo, janeiro-julho de 2013, Vol.2 , n. 1.

Palavras-chave: Raça Brasil; mídia negra; contraestigmatização; segmentação.